Correio do Minho

Braga, sábado

Adversidades pungentes

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Conta o Leitor

2015-08-03 às 06h00

Escritor

Evangelista Miranda

Avesso ao trabalho no campo, o Asdrubal tinha na mãe o anjo protector que procurava resposta aos anseios do filho. Na escassa oferta de emprego, a mãe foi pedir a um guarda-livros conhecido, no sentido de ajudar o Asdrubal a estudar por correspondência, ligado a essa profissão; acontece, que ao fim de 15 dias o referido guarda-livros resolve ir para Angola trabalhar deixando o discípulo sem orientação. Foi quando a mãe do Asdrubal foi pedir a uma loja de ferragens e cimentos, um emprego, que lhe foi prometido; só que entretanto apareceu uma pessoa da vila - mais influente - que pretendendo emprego para o seu filho, deixou o Asdrubal sem solução. Diante das dificuldades, foi pedido emprego numa oficina de serralharia mecânica e, embora num ambiente rude e duro, o Asdrubal com a sua determinação procurou aprender, resistindo três anos, sendo depois encaminhado para a cidade do Porto/Gaia, onde trabalhou durante mais três anos, sempre na profissão da sua vocação que era mecânica auto, tendo ao mesmo tempo, iniciado a frequência do ensino industrial em regime pós-laboral e, que passado algum tempo o levou ao serviço militar, indo frequentar o curso de Sargentos pelos estudos obtidos. Durante a frequência do curso de sargentos na Escola Prática de Serviço de Material em Sacavém, o Asdrubal pela sua simplicidade e ingenuidade até: sempre foi abordado pelos mais desventurados; ora, um desses era o “Chile”, por ser criado e nascido na Praça/bairro do Chile em Lisboa, mas, que pelas desventuras foi parar à Casa Pia, onde passou grande parte da adolescência e, obteve alguns estudos ao ponto de entrar para o curso de sargentos no serviço militar. Portanto: o Chile tinha um amigo com quem contava logo de manhã para lhe emprestar o estojo de barbear, a graxa das botas - quando as engraxava - e, se tal não acontecia, ia para a formatura das oito da manhã, pondo-se atrás do Asdrubal e, quando o oficial de dia passava diante deste para o examinar, e seguia, o Chile aproveitava o oficial pelas costas, puxava o Asdrubal para o seu lugar e, ponha-se ele na fila da frente, como já examinado. Diríamos, que o Asdrubal era uma espécie de pai do Chile, que este nunca teve. Das várias peripécias ocorridas entre os dois, destaca-se a prova escrita global de fim do curso, vigiada por um furriel do quadro, onde o Chile se pôs no estirador atrás do Asdrubal, para que este de vez enquanto puxando o teste ao lado o fosse ajudando; ora, isto foi feito uma e duas vezes: sendo chamados a atenção; na terceira vez, vem o furriel novamente e tira o teste ao Asdrubal, quando este tinha mais de metade por responder. Com menos de metade do teste avaliado, o Asdrubal viu a sua nota que seria para além de 16 valores ser reduzida para treze. O Chile, por estas e outras peripécias foi mandado para soldado raso. O Asdrubal que era candidato ao 1º lugar no curso, viu a sua nota no meio da tabela, cedendo o primeiro lugar ao Flores, do Porto, que era um rapaz muito qualificado. Mais tarde, ao escalar os candidatos para a guerra colonial, o Asdrubal foi por isso primeiro, e para Moçambique; o Flores, com mais três pontos foi mobilizado com mais tempo de serviço e, para a Guiné, onde a guerra e o clima eram muito mais severos. Indo formar companhia na ilha da Madeira com vista à guerra em Moçambique, cedo o comandante da Companhia viu no Asdrubal um elemento a ter em conta. Ora, a estada de três meses na Madeira mais um mês de viagem no India, até Nacala, onde desembarcaram foi tudo divertido, até, ao entrar em coluna de dezenas de camiões - civis e militares - que havia de levar a sua companhia mais outras duas até ao norte de Tete, na localidade do Fingoé; ao longo de 500 Km do trajecto, foram surpreendidos pelo rebentamento de uma mina e, depois de rebocar o carro para cima de um outro: reiniciando a marcha, rebenta a segunda mas, sem que houvesse feridos; então, o comandante da coluna, decide que todo o batalhão pernoite ali até ao dia seguinte no meio da mata. Pela inexperiência, durante a noite passa uma pacaça perto de uma sentinela: este, assusta-se com o tamanho do animal e começa a disparar com medo: é quando todos os soldados começam a fazer o mesmo, com tiros sem direcção, parecendo o fogo de S. João no Porto. No Fingoé, e com tantas peripécias, destacamos o facto de um furriel de transmissões da CCS insistir junto do Asdrubal, que era o responsável pelas viaturas, e, lhe propiciasse uma saída com um Jeep para aprender a conduzir, pois queria tirar a carta de condução. Certo dia lá sai o Asdrubal mais o furriel com este ao volante e, numa picada onde existiam alguns pontões feitos de troncos; ao chegarem perto de um deles, o Asdrubal diz para parar, mas o furriel continua sem obedecer. Correu bem por acaso mas: no regresso, o furriel é chamado a atenção para parar antes do pontão, com o fim deste ser atravessado com o Asdrubal a guiar: só que, voltou-se a repetir a cena, tendo resultado na queda do Jeep no meio das pranchas do pontão, sendo o Asdrubal cuspido para a frente, onde ficou com o queixo esgaçado, e, isto porque o pára-brisas ia voltado em cima do capô, de contrário era uma tragédia. Mesmo assim, foi um trabalho de mestre sério, aquele que o doutor Trigueiros fez ao cozer a sangue frio, o queixo do Asdrubal com 12 pontos. Com a companhia instalada mais tarde na localidade de Lalaua, onde não havia guerra, o Asdrubal certo dia - porque nem era preciso sentinela - vai encontrar o general Costa Gomes, comandante militar de Moçambique, no parque das viaturas, como que tomando nota do seu estado; ao ver este cenário e, porque o Asdrubal conhecia bem a pessoa, ficou um tanto surpreendido e estático a ver o que se seguia e, que foi o forasteiro, a dirigir-se para as instalações do comando da companhia, nunca sabendo qual foi a conversa e finalidade da visita. O que se sabe, é que passadas duas semanas, vem uma comunicação de que a companhia do Asdrubal estava escalada para uma intervenção no interior/Norte do distrito do Niassa, indo operar com três pelotões junto de várias outras companhias e batalhões em várias operações programadas para aquela região, colocando assim o Asdrubal e companheiros durante três meses a dormir em tendas numa campanha de cerca de três mil Km, comendo geralmente rações de combate, alternadas de vez enquanto com comida quente. Ora, esta tarefa teria que caber também ao Asdrubal, que apesar de especialista, ele era indispensável da parte do comandante da companhia, dada a importância do transporte, sobretudo, quando se tratava de estradas/picadas que por vezes eram autênticos pântanos, onde os carros ficavam enterrados. Ora, foi precisamente na fronteira com a Zambia que o comandante, ao volante de um hunimog, metendo o carro pelo leito do rio Rovuma, bateu de frente num talude, tendo partido a caixa de velocidades da viatura; comunicado o acidente ao Asdrubal que se encontrava a 90 Km na sede de uma companhia, este toma o táxi aéreo do correio e pôs-se a caminho de Monte Poês, onde se encontrava um Pelotão de Apoio Directo, e que este cedesse uma caixa de velocidades de um carro minado. O capitão do quadro, comandante do PAD, das várias vezes que o Asdrubal o tentou abordar, nem sequer lhe deu atenção para ouvir do que se tratava, tal era o tipo de pessoa, dando-lhe um berro para se pôr dali para fora, na ultima insistência. Com isto: o Asdrubal procura retomar o táxi aéreo a caminho de Nova Freixo onde havia um PAD e, por sorte, onde o Asdrubal vê um furriel miliciano conhecido, dirigindo-se a ele para ver se resolvia o que procurava, indo primeiro ao parque das viaturas minadas, saber quantas caixas havia em bom estado, para depois se dirigir ao gabinete do capitão comandante do PAD, e, com a ajuda do furriel, ser bem recebido e que o seu pedido fosse atendido: o que veio a acontecer. Nessa altura, procurou também saber que no dia seguinte ia sair uma coluna de abastecimento para as tropas da região donde vinha e, que lhe levaram a caixa de velocidades para não ter que deixar o hunimog, ou traze-lo de reboque. Para terminar era de referir que durante esta intervenção, estando o Asdrubal juntamente com o General Spinola nas instalações de uma companhia na ilha de Metarica, a certa altura o Asdrubal, a dirigir uma Berliet, vai ao Batalhão a 60 Km buscar um medicamento necessário e, é informado pelo general de que dali a pouco, este, vai sair em direcção ao batalhão num hunimog. Sabendo disso: no regresso, o Asdrubal ao conduzir a Berliet, sabendo que vinha de frente o general no hunimog, nas curvas apitava constantemente, ao ponto de esvaziar o compressor e, que em certa altura deixou a Berliet sem travões. Ora, foi precisamente, numa curva que, vindo o Grilo a conduzir o hunimog com o general ao lado: que o Asdrubal sem travões na Berliet, para não bater de frente, entra pelo meio da mata abaixo, desvia daqui e dali para não ir contra uma arvore e, retoma mais adiante a picada sem que o general se tenha apercebido do incidente.

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