Correio do Minho

Braga, sábado

Agora no S. João é o tomar dos amores…

Os Novos Estatutos do Escutismo Católico Português

Ideias

2015-06-10 às 06h00

José Hermínio Machado

O verso que uso como epígrafe tomei-o do Cancioneiro Minhoto e os outros que o completam como quadra são «estão os linhos pelos campos, toda a terra tem flores», constituindo a estrofe uma celebração festiva da criação, primeiro a natural, que serve de exemplo concretizador, mas em segundo lugar a humana, pois tomar amores é o comportamento social que a festa sanjoanina mais e melhor consagra.

Em 1892, no seu número 4, saído em vésperas de S. João, a revista A Folha do Minho inseria na página 2 um texto apologético da festa junina, nestes termos:
«Rabulices e Rabulóides. O S. João! O S. João! Eis a grande attraction que arrasta d’entre as aldeias tifadas de verdura os camponeses alegres, d’uma vivacidade emotiva, penetrante! Chegam em bandos, poeirentos, zorrando nos harmoniuns e violas desafinadas, guinchando uns descantes apropriados ao seu viver rude mas feliz.

E as Marias, braços na cintura, modos agaiatados, fazendo ressaltar as formas opulentas, que lenços ramalhetados ocultam, dançam, doidejantes, uma dança typica, que, certamente, o Rei David lhes transmitiu! Mas d’isto tudo o melhor, / De mais vivas sensações / É depois, no arraial, / O que chupam os lambões! // São felizes os Manéis, / São felizes as Marias, / Uma grande bambochata… / Tudo pandega… alegrias! // As iluminações mosqueam de luz o local pittoresco da Ponte; e o foguetório, deixando rastos luminosos na escuridão do espaço, atroa o ar com o seu estampido dynamitico ou lança lá da altura umas lagrimas coloridas, afogueadas como a essas horas as faces rechonchudas das Marias! Folgae, folgae, raparigas! / Tendes o sangue a saltar! / A vida é breve… Folgae… / Amae… deixae-vos amar! // Ah! Que esses vossos Maneis, / De faxa e de varapau, / São uns grandes felizões, / Que nos vão dando quinau! // E ficamos a apitar!... / Bem invejosos até… / É que as Marias nos dizem: / -“Não sou forma do seu pé”.

O que este texto tem de pertinente é relevado nas suas marcas de contemporaneidade, na sua linguagem moderna, buscando o realismo impressionista ao mesmo tempo que o naturalismo da interpretação e do desejo. Pode mos tomá-lo como um bom exemplo do texto apologético da festa feito a partir de uma erudição literária que toma os comportamentos festivos dos foliões como desejos exemplares (quinaus são marcações, sinalizações, tentos de correcção), aspirações de uma orgia dionisíaca (bambochata é isso mesmo, uma representação do banquete popular) que não se consumará por falta de adequação entre conteúdo e forma, mas que se deseja e se atiça como marca de vitalidade. Se hoje continuamos a projectar a festa sanjoanina como repetição dos apelos criativos, é bom sabermos que também esses apelos já acumulam uma tradição de aspiração literária, uma desejo de que a linguagem enuncie tudo quanto a realidade contém e induz.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.