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Ai, que horror!

Generosidade q.b.

Ai, que horror!

Voz aos Escritores

2024-03-01 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

O Pereira das Violas é em Braga casa antiga. Por causa da denominação, assumi, durante muito tempo, que ali se vendiam violas. Até que alguém me levou em busca de retrós, fios de seda necessários para certa produção. Fiquei então a saber que no lugar de uma casa de violas ou violinos havia uma retrosaria, onde se vendiam artefactos variados de costura. Não sei a origem do nome, mas contém a palavra "viola", que remete geralmente para aquele instrumento de sons maviosos que todos gostamos de ouvir.
Lembrei-me do Pereira hoje de manhã, quando, numa das minhas viagens, ouvia a Antena 3. Falava-se de coisas como "o que querias ser quando fosses grande", tema brejeiro que se atira às criancinhas nas rondas do crescimento. Uma dizia que tinha sonhado ser médica, porque gostava de ajudar os outros; outra queria ser advogada, por razões equivalentes; a terceira disse que sonhara ser doméstica, para cuidar de filhos e jardim.
? Doméstica? ? Esbugalhou o locutor a frase. ? Ai, que horror!...
Esta inusitada exclamação afinou-me as antenas. Horror porquê? Estaria o locutor a pensar em algo distinto do facto de se ser doméstica? Ter-se-ia lembrado de "violência doméstica" e regurgitado por isso tão perturbante exclamação? Guinei à esquerda para não ser atropelado e fixei-me no verbo "violar", que não me remete para o Pereira pela simples razão de que nenhum dicionário o explicita com o significado de "tocar viola".
Engraçado, nunca tinha pensado nisto, quem viola não toca viola. E, sem querer, embrenho-me na temática, vou ao latim "violentia", passo pela física não sei se aqui sugerida, salto à moral e à psicológica, mais profunda e subtil, resmungo as violências políticas perpetradas em tantos cantos do mundo, tudo a par da policial e da religiosa, esta bem marcada nas chamas do inferno que ainda crepitam na mente que eu quero juvenil.
E volto ao "Ai, que horror" do nosso (com certeza irónico) locutor. Penso: de que forma as inscrições do politicamente correto impõem novas visões do mundo e correlativos comportamentos? Que uma mulher tenha como objetivo de vida casar, ter e cuidar de filhos, tratar das belas flores do seu jardim, transformou-se de tal forma em coisa atípica capaz de arreguilar os olhos (e, já agora, a sensibilidade e a inteligência) de um locutor pretensamente bem-educado? Em que consiste, neste caso, a violação, a violentação? O horror verdadeiro, esse senti-o eu ao ouvir tão inexplicável exclamação. E pus-me automaticamente ao lado da criança que sonhava um dia ter filhos e um jardim cheio de flores. Acontece-me com frequência divagar sobre as coisas, e mais se vou em viagem com um fundo de Bach. Percorro um labirinto de possibilidades e desemboco no horror sórdido de que nos falava Pessoa. Alepo, Ucrânia, Gaza, recantos de África e do mundo, lugares onde a vida estilhaça e onde o amor soçobra, mostram a sordidez de um comportamento humano mascarado de paz e de hipocrisia. Haverá horror que supere o desmembramento dos corpos, das cidades e das civilizações? Num nível diferenciado de horror, absorvo as imagens das laranjeiras carregadas do doce fruto, aquelas que vejo ali majestosas ou caídas pelo chão. Tanta gente a passar fome e tanto desperdício inexplicável. Porque não se colhem os frutos e se dão a quem deles necessita? Com tanta abundância e esbanjamento, porque pagamos a laranja a dois ou três euros na maioria dos hipermercados? Há algo de imperscrutável no pensamento e na ação humana, tão tecnologicamente avançada e tão emocionalmente perdida. E há momentos capitais em que, mesmo num veículo em andamento sereno, devemos questionar-nos sem entraves ideológicos: é este o progresso de que a humanidade necessita, com o nuclear na corda bamba e a fome aos berros nos campos descarnados? A minha alma humana, o meu coração de poeta sensível, diz-me definitivamente que não.

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