Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Ai Que Saudades Eu Tenho…

Quem fez o trabalho de casa?

Ideias

2015-01-30 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Boquiaberto com a queda das grandes famílias burguesas, nascidas no século XlX, dei por mim a ter saudades da grande burguesia que se passeavam nos grandes romances europeus com sobranceria e ética, mas sempre acima de qualquer suspeita. E fui folhear o livro de Thomas Man, ‘As Confissões de Félix Krull, O Cavalheiro da Indústria’.
Em Portugal a ascensão da burguesia, e sobretudo da burguesia industrial, não foi um caminho fácil e sempre feito às costas do Estado. O Estado dependia deles (Burnay, Pinto Basto e outros) para o equilíbrio das suas contas e eles precisavam do Estado para os seus negócios. Referindo-se a Burnay, Bordalo Pinheiro escreve:
Estrangeiro, banqueiro, onzeneiro,
Tem Portugal inteiro apertado na mão.
Bancos, províncias, oiro, hotéis, homens, governos
Querelas, concessões, coroas, céus, infernos,
Companhias, jornais, dinheiros, capelas e tabacos…

Mas a grande literatura portuguesa do século XlX não se lhes refere, à excepção de Ramalho Ortigão. Maria Filomena Mónica cita uma carta deste a um ministro do Reino. “ Nos chefes da indústria, ausência de classe, de amor da profissão. Uma vez enriquecido, o industrial torna-se capitalista, homem de negócios, influente político, comendador, visconde, director de bancos, gerente de companhias e considera a fábrica um desdouro, um ganha-pão subalterno”.
Em Portugal nunca houve capitães da indústria. E nisto talvez Max Weber, tenha razão quando escreveu ‘Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’.
O esteriótipo descrito por Ramalho Ortigão não é muito diferente da fauna actual, acrescido de uns tantos “gestores de topo” nascidos do yupismo da década de oitenta e do parasitismo partidário, que os jornais económicos e as mesas redondas televisivas foram promovendo.
O resultado disto tudo é um país em frangalhos que o governo vai vendendo a preço de saldo a fundos abutres. Mas ao contrário do que nos querem fazer crer os governantes, os abutres não investem, sugam e alimentam-se de carne podre. Isto a propósito da venda da PT e, brevemente, da TAP. E pouco mais resta.

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