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Ainda o Brexit

Ideias

2020-01-31 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Diante da folha em branco, hesito sobre o que escrever. Estas últimas semanas têm sido abundantes em temas muito diversos, mas hoje não há mesmo volta a dar. A questão mais importante é mesmo o Brexit, finalmente aí, real.
Estes últimos dias de janeiro foram ainda marcados pelos 75 anos sobre a libertação de Auschwitz. 27 de janeiro é o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. Começou a ser construído em 1940, e entre 1942 e 1944, foi o fim da linha para mais de três milhões de pessoas. Dois milhões e meio foram mortos em câmaras de gás, escolhidos a dedo idosos, mulheres, doentes e crianças. Regularmente, nas filas que tinham de seguir para serem contados ou se dirigirem para o trabalho, os guardas atiravam a matar sobre presos, aleatoriamente, para manter vivo o medo e facilitar o controlo. Meio milhão de pessoas morreram de fome e de doenças. Ou serviam de base, de cobaias em experiências médicas. Talvez estes números não estejam rigorosamente corretos, e na verdade tenham sido menos – fala-se também em 1,3 milhões de gaseificados. Nunca saberemos – a inumanidade é terrível, é demasiado.
Li, ainda muito jovem, o diário escrito por Anne Frank, e mais tarde o livro espantoso de Primo Levi, Se isto é um Homem. De forma diferente, dirigidos a público etários distintos, qualquer destes livros surpreende e causa mal-estar, horror e incompreensão. O livro de Primo Levi questiona até que ponto alguém consegue aguentar, o que se pode fazer para sobreviver. “Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos, marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem.“ (Primo Levi, 11º edição). O jornal Le Monde considera-o como um dos 100 livros mais importantes do sec. XX; parece que faz do programa de leitura do ensino secundário.
Mas nada me preparou, de facto, para a visita ao Museu de Auschwitz, para os milhares de pequenos sapatinhos de criança, armazenados após as cremações, para uma extraordinária quantidade de cabelo de mulheres rapadas antes de entrarem nos fornos, para os milhões de escovas de pentear e dos dentes, remetendo para a concretização de pessoas, as fotografias nas paredes, o arame farpado eletrificado. Como se despojados da identidade, ela se mantivesse, e se tornasse real.
Ainda citando Primo Levi, na introdução do seu livro : “Vós que viveis tranquilos/Nas vossas casas aquecidas/Vós que encontrais regressando à noite/Comida quente e rostos amigos:/Considerai se isto é um homem/Quem trabalha na lama/ /Quem não conhece paz/Quem luta por meio pão/Quem morre por um sim ou por um não/Considerai se isto é uma mulher/Sem cabelos e sem nome/Sem mais força para recordar/…/ Recomendo-vos estas palavras/Esculpi-as no vosso coração”.
A Europa saiu desse horror reconhecendo a necessidade absoluta de convergir, de encontrar formas que permitissem dizer não à guerra e garantissem a reconstrução e o caminho do crescimento económico.
Que permitissem a reconfiguração interna das forças entre a Alemanha, a França e a Inglaterra, e uma posição reforçada da Europa no contexto geoestratégico mundial. Garantindo que os valores da democracia, dignidade do ser humano, liberdade, igualdade, direitos humanos, num contexto de estados de direito, se mantêm.
Mas enfim, sabemos bem que num mundo hiperglobalizado de hoje, que o enorme e rápido progresso tecnológico facilitou e tornou também muito mais com- plexo, as coisas podem ser difíceis. E que as escolhas também se interrelacionam com as características dos líderes e com a forma como as mensagens são divulgadas. A Inglaterra formalizou dia 30 de janeiro a sua saída da União Europeia. Um estudo publicado em Março de 2019 por Latorre, Olekseyuk , Yonezawa e Robinson, analisam-se os resultados obtidos numa série de trabalhos publicados sobre o tema; procura-se avaliar o impacto potencial no PIB, nos salários, no consumo privado, no comércio externo e na inflação. Concluem que todos vão perder, ainda que o Reino Unido venha a registar as perdas mais elevadas. Veremos. Como sempre, vai depender dos acordos a que se chegar efetivamente.
O que é certo é que a Europa será, desde amanhã, 1 de fevereiro, diferente. Mais instável.

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