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Braga, segunda-feira

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Alguém ao seu lado...

A recuperação das aprendizagens

Conta o Leitor

2021-07-26 às 06h00

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Texto Suelita Nogueira

Você já ouviu falar que existem pessoas que estão casadas e são mais solitárias que os solteiros? E que outros escolhem viver sós, por acreditar que a certa altura da vida, muitos de nós ficaremos sozinhos. Se para alguns a solidão é importante, para ela a ideia de ficar sozinha, era aterrorizante. Acreditava que ter uma boa companhia era o bastante para ser feliz. Estava disposta a fazer sacrifícios para ter alguém ao seu lado. Leu em algum lugar que os casados têm mais saúde e vivem mais. Tinha muito o que viver e naquele momento, a última coisa que queria era fechar os olhos.
Estava apaixonada e feliz, fazia as tarefas domésticas com muita dedicação. Ao final do dia, cuidava de si, ficava linda e aguardava a chegada de seu amado. Queria saber como foi o seu dia, se ele estava bem e feliz. O diálogo é importante, ajuda a manter os parceiros conectados. Uma relação duradoura requer persistência e tolerância. Não deixaria que o silêncio e a rotina afastassem seu parceiro de longa data. Estava motivada a fazer coisas novas, manter a mente ativa e aberta para novas possibilidades.
Decidiu desenvolver seu talento criativo, começou a fazer tapeçaria. Não deveria ser tão difícil, já que tinha facilidade com trabalhos artesanais. Ela admirava os tapetes de Arraiolos e resolveu que faria um, para sua casa. Inteligente e determinada, em poucos dias concluiu seu intento. A peça ficou pronta e ela gostou do que fez, foi gratificante. Restava saber a opinião do companheiro, era importante que ele se manifestasse. Mostrou-lhe o que havia feito e perguntou o que ele achava, ele respondeu que estava bom, mas que ela poderia pensar em mudar o corte do cabelo. Como ele não demonstrou muito entusiasmo, ela começou um novo desafio, iniciou um curso de beleza, pois sempre quis aprender a maquiar-se. Fez uma bela maquiagem em si mesma e mostrou ao marido, que fez a seguinte observação: ficou bom, mas você deveria colocar mais cor nas suas roupas ou no seu cabelo.
Aquele comentário a deixou aborrecida, pois sempre teve predileção por tons claros e ele a elogiava por isso, mas agora está a perceber que os tons pasteis de suas roupas, não o agradam mais. Quanto aos seus cabelos longos e negros, que ele elogiava tanto na juventude, já não chamam mais a sua atenção. Concluiu que ele estava certo, que deveria fazer algumas mudanças. No dia seguinte, acordou cedo, cuidou do jardim, plantou flores novas. Estava muito animada e disposta a fazer uma transformação.
Foi até ao salão da Amélia, a melhor cabeleireira da cidade, pediu que ela fizesse algo diferente, queria mudar radicalmente seu cabelo. Saiu do salão com um penteado transcendental, estava se sentindo mais jovem, uma nova mulher. Comprou um vestido vermelho, chegou em casa, preparou o jantar, fez uma mesa para dois. Tomou um banho demorado, fez uma bela maquiagem, colocou o vestido novo e esperou pelo amado e enquanto ele não chegava, ela resolveu experimentar uma copa de vinho branco.
Estava muito ansiosa e curiosa para saber qual seria sua reação. Ele entrou, olhou para ela e disse: o que aconteceu com você? Ela acreditando que ele se referia a sua mudança visual, e querendo provocar elogios, respondeu-lhe: não fiz nada, querido, por que perguntas? Ele respondeu: você nunca tomou vinho, ela respondeu: sim, mas você gosta do que vê? Ele olhou para mão dela e disse que preferia os tintos. Ele sentou-se no sofá da sala, ligou a televisão e começou a assistir ao jogo de futebol. Ela lhe disse que havia preparado o jantar, ele respondeu que estava sem fome.
Aquela reação a deixou profundamente magoada, pois nada do que fazia, despertava sua atenção. Estava quase desistindo, quando resolveu sentar-se na poltrona do terraço, respirou fundo e ficou observando o balanço das árvores, sendo guiadas pelo vento. Olhou para o jardim que estava todo florido, uma brisa suave trazia consigo o perfume das rosas. Seu coração começou a ficar mais calmo e a bater levemente, acompanhando sua respiração, que seguia mais tranquila. O cansaço foi diminuindo e suas pálpebras começaram a ficar mais pesadas. De repente ela sentiu uma mão tocando seu pescoço e seus ombros, fazendo uma leve massagem, enquanto a tocava, falava baixinho ao seu ouvido: seu cabelo é macio e cheiroso, você está muito linda! Aquele toque suave deslizava por seus braços, chegava até suas mãos e as envolvia, seus dedos se entrelaçaram e naquele momento terno, viu todo seu esforço ser recompensado. De repente, um grito de golo a despertou e ela percebeu que havia cochilado e que tudo não passou de um sonho.
Mesmo dececionada com a realidade de sua vida, estava disposta a manter-se sempre motivada e linda, pois quando fechasse os olhos, tudo poderia acontecer… E quanto as atitudes de seu companheiro, compreendeu que não era preciso tanto para deixá-lo feliz. Como já dizia a escritora e jornalista Clarice Lispector: “Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada”. 

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