Correio do Minho

Braga, terça-feira

Alguém nos diga… a verdade!

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2010-05-30 às 06h00

Carlos Pires

1. Este país parece não ter rumo. Peço desculpa aos meus leitores pelo pessimismo que esta frase revela. Contudo, tal como muitos de vós (ou mesmo, todos?), aposto, sinto-me baralhado e confuso, face à informação contraditória que diariamente me chega aos ouvidos e aos diferentes rumos e estratégias que são fixados para o país por quem exerce o poder.

O país revela desorientação. Os políticos - Governo e Partidos - fazem hoje o contrário do que disseram ontem. Senão, vejamos: há muito pouco tempo, colocar a hipótese de travagem nas obras públicas era, para o Governo, algo impensável. Deixou de ser. Ainda, há muito pouco tempo, falar na possibilidade de aumentar os impostos para ganhar receita era, para o Governo e para o PSD, uma heresia. Deixou de ser. A crise é invocada para justificar tudo - 'Disse ontem uma coisa e hoje digo ou faço outra? A culpa é da crise!”.

É verdade que o país agradeceu uma imagem de unidade entre PS e PSD na determinação para enfrentar os desafios que se nos colocam. Mas o país mais agradecido ficava se lhe fosse explicado, e por todos, as razões pelas quais as medidas adoptadas são necessárias, mesmo que correspondam a uma inflexão do que, há bem pouco tempo atrás, qualquer um desses partidos defendera. Mas não! O PS justifica-se com a “crise” e o PSD mais preocupado parece em justificar a aliança com o PS, como se de “traição” se tratasse.

O povo, esse, reclama verdadeira e desinteressada união. Reclama ainda, e com legitimidade, informação rigorosa quanto aos aspectos concretos que nos possam tirar do buraco que cavámos à nossa volta.

De resto, no que diz respeito ao dever de informar com verdade os portugueses, as minhas críticas vão mesmo para além da classe política. Nos últimos meses, têm sido muitos os politólogos, os economistas, os banqueiros, etc, que aparecem na Comunicação Social a opinar e a contradizerem-se, mutuamente. Das duas uma: ou não percebem do assunto e, nesse caso, deveriam abster-se de emitir “ruido”, ou, então, por simpatia política, por falta de coragem ou mesmo por arrogância intelectual, insistem numa visão porventura a derrogar ou a temperar.

Também eles nos confundem e baralham, sendo certo que também a eles se exige, nos dias de hoje, a cooperação e diálogo necessários à criação de soluções que se revelem certeiras. Como se reduz o assustador desemprego? Como se revigora uma economia agonizante? Se eles sabem como, eu não me apercebi! Todos falam e ninguém tem razão, parece! Todos falam e não apontam soluções, esta é a verdade!

2. À medida que o tempo passa, vai-se consolidando a ideia de que Portugal atravessa a pior crise desde 1974. Afinal, quem são os culpados da situação económica em que vivemos? O povo e a Oposição culpam o Governo, o Governo culpa os marotos das agências de “rating”, que, por sua vez, limitam-se a tornar pública a realidade. O “bom-senso”, esse, diz-nos que andámos, durante anos, a gastar mais do que podíamos e que fomos traídos por quem tinha a obrigação de regular esses impulsos masoquistas.

E que devemos fazer para “arrepiar caminho”? Muitas das regras do jogo já nos foram ditadas por Bruxelas, uma vez que os países ricos da União Europeia não estão mais disponíveis para cobrir com milhões de euros a irresponsabilidade dos outros. Vamos pagar mais IVA e IRS, todos os meses, até ao fim de 2011. Bom, isso foi o que nos disseram a semana passada; para a semana, ou ainda esta, quem sabe, logo se verá. Claro que, na hora de “apertar o cinto”, não se percebe como é que a Assembleia da República aprova um orçamento que inclui aumento (em vez de redução) da despesa com o seu funcionamento e os seus deputados para 2010, nomeadamente em transportes, realização de seminários e até em decoração do Parlamento. Também eu, caro leitor, fico confuso e não percebo…

De que forma é que reagem em Portugal os consumidores a tudo isto? A resposta a esta questão, decisiva para se saber qual o rumo da economia portuguesa durante os próximos meses, foi dada com a publicação, pelo Instituto Nacional de Estatística, na passada sexta-feira, dos resultados dos Inquéritos de Conjuntura às Empresas e aos Consumidores de Maio. O clima económico voltou a melhorar, pelo 3º mês consecutivo, mas a confiança dos consumidores manteve-se negativa. A expectativa de tempos mais difíceis por parte das empresas e das famílias tem como consequência uma maior prudência na hora de decidir quais os investimentos a realizar e quais as compras a fazer. É possível que uma redução dos níveis de confiança venha acompanhada por uma quebra da procura interna, que abranda a economia.

A cabeça dos portugueses anda à roda com tanto ziguezague, quando deveria estar firme e consciente do enorme esforço que a todos se impõe. Passo a citar as declarações proferidas, em Madrid, pelo presidente brasileiro, Lula da Silva: 'Se nós, como políticos, fizéssemos apenas o óbvio e não tentássemos inventar tanto, seria muito mais fácil governar o Mundo. Um inventor pode inventar o que quiser, mas um governante tem de fazer o óbvio'.

E fazer o óbvio é falar verdade e ser coerente. Fico, pois, revoltado, quando o Governo apregoa, descaradamente, que 'não tem de pedir desculpas aos portugueses por cumprir o seu dever”. Na verdade, todos nós concordamos que a um político exige-se que cumpra o seu dever. Mas, o dever de um político é, desde logo, falar verdade. O que, parece-me, tem faltado, ao Governo e aos políticos.

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