Correio do Minho

Braga,

Alternativa e alternância

Macron - Micron

Ideias

2013-04-02 às 06h00

Jorge Cruz

“Não dá a bota com a perdigota” - provérbio popular

Um caso caricato, embora não inédito, ficou a assinalar a última reunião da Câmara Municipal de Braga: após ter votado favoravelmente a proposta do PS para a entrega da exploração comercial de um quiosque ao Sporting Clube de Braga, a coligação PSD/CDS decidiu criticar publicamente a decisão.
O vereador Serafim Rebelo, um homem franco e frontal, aceitou ser “empurrado” para a cabeça do touro da estranha contestação, demonstrando des-se modo que também é politicamente solidário com Ricardo Rio, mas com tal atitude deixou a descoberto uma grande ingenuidade política.

De facto, o representante da coligação de direita na Câmara Municipal de Braga tentou justificar a clara contradição que se verificou entre o voto que validou a entrega do quiosque e a crítica à decisão com questões de princípio, ou seja, com a “forma como o PS gere os dinheiros municipais”.
“O que não se entende neste processo - disse o substituto de Rio - é que o quiosque tenha sido comprado para funcionar como unidade de turismo e nunca tenha cumprido esse fim”, afirmação que o faz questionar-se sobre a hipótese de a Câmara ter abandonado a ideia.

A explicação é demasiado esfarrapada, demasiado impensada e pouco consentânea com a realidade para poder ser consi-derada válida e não apenas como aquilo que parece ser - uma tentativa de levantar uma nuvem de poeira para confundir o seu eleitorado e, nessa medida, exclusivamente orientada por questões de contabilidade eleitoral.

Se não vejamos:
Em primeiro lugar, porque no local próprio, ou seja, na reunião do camarário, a coligação de direita ‘Juntos por Braga’ votou favoravelmente a decisão, que viria a criticar pouco tempo depois, quando tinha toda a liberdade para votar de forma diferente. Esta contradição só é entendível pelo facto de se aproximarem as eleições autárquicas, isto é, percebe-se que a pouco mais de seis meses do acto eleitoral Ricardo Rio não queira afrontar uma colectividade com o peso do Sporting de Braga…

Depois, porque não é rigorosamente verdade que o quiosque nunca tenha servido os fins para que foi adquirido. Basta lembrar a sua utilização pela Capital Europeia da Juventude para desmontar tal asserção. Mas também aqui se entende o receio da coligação de direita: trazer à colação o trabalho desenvolvido pela Capital Europeia da Juventude, aliás como o de tantas outras instituições com obra feita, é desmontar o seu discurso pou-co rigoroso e demasiado eleitoralista, o que poderá reflectir-se negativamente na contabilidade eleitoral de Outubro.

Perceber-se-ão melhor, à luz desta mais recente contradição da coligação de direita, as advertências de Ricardo Rio no encontro que manteve há dias com autarcas do seu partido para preparar as autárquicas de Outubro. “Não haja ilusões, esta será uma luta árdua, e só com muito trabalho e determinação poderemos vencer”, avisou na altura.

Penso que não será com posturas confusas e contraditórias como a que rodeou a concessão do quiosque ao SC Braga que a coligação ‘Juntos por Braga’ confirmará aos eleitores bracarenses a declaração de Ricardo Rio no mesmo encontro: “Cabe-nos a nós, dia após dia, a responsabilidade de continuar a demonstrar que somos uma alternativa sólida, dinâmica e moderna, capaz de conduzir a uma muito melhor gestão de Braga e das freguesias do concelho”.

Convém, antes de mais, lembrar que existe uma enorme diferença entre alternativa política e alternância e que o equívoco entre ambas, intencional ou não, apenas contribui para baralhar o eleitorado. Ora, para uma verdadeira alternativa política, que não me parece ser o caso, há que apresentar propostas políticas novas, propostas de ruptura com o actual “status quo”.

De facto, a actual liderança da coligação ainda não deu qualquer sinal de pretender romper radicalmente com as políticas que têm vindo a ser maioritariamente sufragadas pelo eleitorado bracarense, bem pelo contrário, tem adoptado uma postura de calculismo político, de que o quiosque será o caso mais recente.

A nobreza da política está na seriedade, intelectual e não só, que os agentes políticos podem e devem colocar no desenvolvimento quotidiano desta tão relevante quanto imprescindível actividade. Está num vasto conjunto de qualidades, fundamentais para o exercício das responsabilidades inerentes, de que fazem parte, entre outras, a frontalidade, o espírito de sacrifício, a vontade de servir e a ética.

E a ética republicana impõe códigos de conduta muito precisos, códigos que dão prioridade absoluta à procura do bem comum, ao bem-estar e qualidade da comunidade e não à conquista e consequente exercício do poder como um fim em si. O que, obviamente, não é compaginável com qualquer tipo de calculismo político. Nem com posições política de conveniência.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.