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Alunos à distância

A saúde escolar em dias de Covid

Alunos à distância

Voz aos Escritores

2020-05-08 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Olhos curiosos, beijos e abraços, vozes e gargalhadas são agora ondas metálicas de sons longínquos. Tudo passou a virtual, quase como o tempo em que nos voltaremos a ver e a sentir, sem artificialidades.
Se houve neste tempo quem o tivesse tido para limpezas, arrumações e aprimorar de dotes culinários, houve também quem tivesse tido tempo para pouco mais do que explorar plataformas, ver tutoriais, fazer experiências várias numa tentativa frenética de substituir o real escolar. Mas a coisa real é um organismo com vida própria, com mutações inesperadas, acções e reacções dependentes apenas do humano que se nos apresenta, em carne e osso. Nunca será a mesma coisa, pelo que nunca poderá ser uma substituição. É antes uma espécie de compensação, com muita adaptação. Física e emocional.

E neste tempo suspenso, pleno de uma liquidez sem cascata, há vários heróis além dos mais óbvios a quem batemos palmas logo no início. Nomeá-los todos seria um risco, pois certamente me esqueceria de alguém. Ainda assim, hoje saliento os pais que se desdobram em casa entre o teletrabalho e os filhos. Os pequenos, os que ainda não são autónomos como a minha filha, os que precisam de acompanhamento quase permanente, os que merecem atenção, compreensão e paciência, os que não entendem porque não podem voltar à escola, aos amigos de sempre, aos professores. À interação genuína, ao toque, ao cheiro. No fundo, aos pais de grande parte dos meus alunos e de tantos por esse país e mundo fora. Aqueles que tentam dar resposta às solicitações profissionais sentados ao lado dos filhos, cada um com o seu ecrã, na gestão possível entre dispositivos tecnológicos e horários, os que têm de calibrar a mente entre o medo e a ansiedade, de equilibrar recursos financeiros disponíveis com a escassez que se avizinha e a incerteza quanto ao posto laboral. No pior dos casos, com a certeza do desemprego que entretanto já se fez anunciar.

No correr desta linha de pensamento, lembro-me da divisão que alguns tentaram fazer, noutros tempos, entre a escola e a família, defendendo que a escola deveria resolver os seus problemas sem invadir o espaço e tempo familiar. Nunca concordei. O ser humano é uno e não fragmentado ou compartimentado. Agora a escola está dentro de casa, o único espaço onde pode existir e onde se confina toda a existência. Mas alguma vez os alunos não trouxeram o que são e o que vivem em casa para a escola, ainda que tantas vezes camuflado por gestos e palavras?

Nos entretantos há balanços que se fazem. Em alguns casos, o facto de ter um ecrã à frente e uns auscultadores nos ouvidos soma pontos para a concentração e faz a dispersão perder a equação. Alguns alunos revelam-se na sua destreza e no caminho da autonomia. Crescem, por força das circunstâncias. Emancipam-se. Por outro lado, outros acentuam a timidez e os professores não conseguem acompanhar as suas dificuldades, não conseguem ver o que estão as escrever nos cadernos, não conseguem ver onde param, onde se enganam, onde podem, na hora certa, ajudar com discrição. Outros ainda não conseguem lidar com este tempo de ausências mal disfarçadas por um ecrã, como ainda esta semana tive uma aluna que, num exercício de vocabulário ao nomear os edifícios que podem compor uma cidade e escolher o seu eleito, ao articular a palavra escola ficou com as saudades a escorrerem pelos olhos.

A escola não é só espaço de aprendizagem, assimilação de conteúdos, edificação de autonomias. É um espaço de partilhas, de vivências mundanas e humanas, de emoções, de construção de conceitos e de relações que farão para sempre parte de cada um de nós. E quando retiramos isso da escola e a tentamos castrar ou mascarar, não demora muito tempo para percebermos que falta oxigénio e que a respiração dá lugar à asfixia. Lenta, muito lentamente.

Sim, é o melhor que podemos fazer neste contexto. Fizemos, em várias áreas profissionais, adaptações em tempos extraordinários, sacrificámos a família, que é mais do que dizer que foi feito com sacrifício pessoal. Umas estarão para ficar e irão permitir um teletrabalho mais saudável e ecológico. Mas para a escola, não é solução.
Tudo isto para dizer que tenho muitas saudades dos meus alunos. E das aulas ao vivo.

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