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Ambivalências na(s) Tecnologia(s)

Beco sem saída

Ideias

2017-04-28 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Não infrequentemente se confunde a questão da natureza da Tecnologia, aquilo que ela é, com a questão do seu uso, aquilo para que serve ou para que foi criada. Porém, a questão ontológica é independente da questão pragmática, ainda que ambas sugiram que uma característica fundamental da Tecnologia em geral, de qualquer tecnologia particular, seja a ambivalência, a contínua flutuação entre propriedades e aplicações contraditórias que provoca uma inconstância altitudinal e sentimental a seu respeito.

A primeira variação concerne à sua “essência”. Com efeito, a Tecnologia é tanto uma construção social, enraizada em processos poiéticos cooperativos humanos, portanto, quanto uma realidade objetiva, uma esfera com vida própria, independente e autónoma dos sujeitos individuais, que alguns, por analogia com a biosfera, denominam de tecnosfera.

Essa variação, contudo, liga-se a uma outra, aquela que respeita aos produtos que integram essa mesma tecnoesfera, e que tanto podem ser artefactos materiais (e.g., bicicleta), como aptidões (e.g., montagem da bicicleta) como conhecimentos (e.g., o sistema de travagem da bicicleta); ou mesmo àquela que dá ênfase à dimensão praxiológica e que a perspetiva ora como produto da acção humana, ora como meio para acção humana, ora ainda como tipo de acção humana (acção técn(ológ)ica).

A Tecnologia, no fundo, é tudo isso ou, se se preferir, são esses os seus modos de ser.
Já a segunda variância radica no seu uso. Existe uma profusa literatura sobre as chamadas “tecnologias de dupla utilização”, isto é, tecnologias projectadas para terem a versatilidade de poderem servir, ao mesmo tempo, fins militares e fins civis. Um exemplo disso seriam os sistemas de navegação global e geolocalização por satélite, vulgo GPS.

Mas, pode perguntar-se, mais genericamente, se qualquer tecnologia não pode ser reconduzida a um outro par de usos eticamente (ou intencionalmente) motivados: gerar um conjunto de efeitos benévolos e, simultaneamente, um conjunto de efeitos malévolos. Isso significaria que o uso da Tecnologia seria, se não inteiramente, pelo menos em grande medida, dilemático, ou seja, implicaria sempre a necessidade de uma ponderação do bem e do mal relativos que pode gerar, não somente em termos de quantidade, mas também, ou até sobretudo, do seu género, sem menosprezar nesse cômputo moral as consequências não intencionadas que sempre pode vir a provocar.

E uma tal avaliação, acrescente-se, será por vezes necessária no plano das actividades de investigação e desenvolvimento tecnológico (design, conceção de protótipos, testes experimentais, etc.) - quando, por exemplo, se produzem materiais nanotecnologicamente modificados em laboratórios científicos deve antecipar-se o risco provável de eles virem a exibir propriedades ofensivas do ambiente e da saúde humana - outras vezes no das de criação de conhecimento tecnológico para o fabrico, manuseamento e manutenção de artefactos (esquemas, diagramas, planos, modelos, etc.) - exemplo disso é a publicação de pesquisas sobre agentes patogénicos altamente virulentos que colocam ao dispor de criminosos e terroristas modos de construir armas letais - e, claro, outras ainda no das de utilização dos últimos - um exemplo trivial seria o do aproveitamento da Internet para plagiar trabalhos académicos; muito embora a mesma Internet possa funcionar como instrumento para a deteção de fraudes desse tipo.
A Tecnologia, enfim, serve para tudo isso ou, o que dá igual, são esses os seus modos de poder ser.

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