Correio do Minho

Braga,

'Amigos até ao fim', por Miguel Guimarães

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2010-07-10 às 06h00

Escritor

Naquele dia do mês de Julho, estava uma manhã cheia de sol que enchia de vida todos os seres existentes na encosta.
Do seu velho casebre, o Tio Xico, um idoso solitário que ali desde que o mundo o viu nascer, aguardava junto de uma das janelas da sua casa a chegada da carrinha da Assistência Comunitária que lhe viria trazer o seu almoço.

Chegava quase sempre depois do meio-dia pois, como era a casa mais isolada da aldeia e servida por um caminho de terra batida ladeado por imensas silvas, o Tio Xico era o ultimo a ser servido.
Vivia só há um par de anos pois, após o óbito da sua querida mulher, e a partida dos seus dois filhos para a cidade na esperança de uma vida melhor, não lhe restou qualquer companhia.
Teria ele de se contentar com as visitas deles ao fim de semana e com a ajuda caridosa das assistentes sociais que o ajudavam no que podiam.

Mas naquela manhã nem tudo estava perfeito. Algo se passava de esquisito…
O carteiro não tinha vindo trazer as cartas como fazia todas as Quintas feiras e pelo caminho acima, ouviu-se o ruído de um motor de um carro.
-Ainda é um pouco cedo para a paparoca… disse o Senhor pensativo quando deixou de ouvir o carro.

Mas, logo a seguir, ouviu duas portas a bater e um carro a acelerar pela encosta abaixo.
- Deve andar toda agente doida… continuou, enquanto esticava o pescoço para tentar ver o que se passava.

Como não avistou mais nada a não ser uma enorme poeira, ficou de perguntar às simpáticas senhoras se tinham conhecimento de algo estranho que se tivesse passado na aldeia.
Passados uns minutos, lá apareceu a esperada carrinha.

Antes que entrassem para dentro da porta, já estava ele muito curioso a perguntar:
-Então? Há algumas novidades lá em baixo no centro? Ou será que está tudo com a mesma pasmaceira!
- Não nos apercebemos nem nos contaram nada, Tio Xico! - Respondeu-lhe uma das assistentes.
- Já agora! Não acha que lhe fazia bem apanhar um pouco de ar puro e apanhar um pouco de sol? Olhe que um dia ainda ganha uma boa carga de ferrugem nesses ossos! - Aconselhou a outra com um ar brincalhão.
- Olhe que no fim de comer até lhe faço a vontade! Assim vocês ficam aqui à vontade para fazerem o vosso trabalho.

E assim foi. Mal acabou de comer os legumes e o pedaço de grelhado que lhe tinham trazido, pegou na sua bengala e desceu os degraus de pedra que lhe davam acesso ao que tinha sido um belo quintal com algumas árvores de fruto. Agora, não passava de um espaço cheio de ervas e de saudades doutros tempos. Porém, o panorama que dali podia ser apreciado convidava a umas visitas mais frequentes.

Depois de dar algumas voltas ao espaço, a falta de frescura física convidou-o a sentar-se numa cadeira plástica patrocinada por uma marca de café que o filho mais novo lhe tinha trazido. A sua origem era desconhecida.

Mal tinha fechado os olhos e já um barulho vindo de um tufo de ervas lhe chamava a atenção.
Como as ervas eram altas, não se apercebeu de imediato no intruso que se deslocava na sua direcção. Só quando este chegou mesmo à sua frente é que reparou que estava perante uma bela criatura que por ali andava perdida.

Era um cão, por sinal com um pêlo castanho cumprido mas muito bem tratado. Os seus lindos olhos pareciam pedir ajuda pois mostravam a angústia de quem estava a passar por um momento difícil.

- Olha para isto! Desta é que eu não estava à espera. Mas afinal, quem é o teu dono?
O Tio Xico estava cheio de curiosidade e de perguntas mas até estava contente por ver ali uma criatura daquelas. Não era costume ter visitas nas tardes da semana.
- Anda comigo para cima que deves estar esfomeado. Acho que devo ter uns restos do meio-dia.
E assim foi. Depois de pegar num prato velho que já não usava, deitou-lhe os restos do que tinha sido a sua refeição. Deitou noutro recipiente um pouco de água para o cachorro se refrescar.
- Estás mais contente agora? Pelo menos já abanas com a cauda. Se fores bem-educado podes ficar até o teu dono te vir buscar.

Começaram a passar as horas, os dias, as semanas e o dono do cão não aparecia. Este começou a aprender a viver no novo mundo que o acolheu.
Também ele já conhecia a carrinha que lhe trazia os aromas da refeição. As assistentes achavam-lhe piada e traziam alguns restos doutros lados com os quais ele se deliciava.

Com o passar do tempo aquele parecia ser o espaço certo para ele viver. Não recebia ordens de ninguém, tinha muito espaço para correr e um novo mundo para descobrir.
Mesmo assim, de uma coisa não se esquecia. Fazer companhia ao seu novo dono e defende-lo de algum mal que viesse a acontecer.

Estava sempre atento a novos intrusos e deitava-se junto do velhote para este não se sentir tão só. Ele, com um sorriso nos lábios não recusava tamanha gratidão.

Numa tarde, estavam os dois a admirar as terras que ficavam no fundo da encosta e, virando-se para o cão, o Tio Xico disse:
- Agora me estou a lembrar! Tu apareceste aqui naquele dia esquisito em que ouvi o barulho de um carro. E o teu dono também nunca mais apareceu. Ias estragar as férias deles, não ias?
E pondo o punho debaixo do queixo com um ar mais triste continuou:
- Já estou a ver. Somos muito diferentes um do outro mas na nossa sorte somos iguais. Fomos os dois abandonados por aqueles que gostamos, não é?
E com algumas lágrimas a quererem sair dos olhos continuou:
-Não te preocupes que enquanto o velho Xico por cá andar, não serás de novo abandonado. Farei votos para que sejas o meu último amigo. O meu verdadeiro amigo.
A seguir adormeceu…

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