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Angustiado para marcar uma consulta? O seu médico também.

É tempo…

Angustiado para marcar uma consulta?  O seu médico também.

Ideias

2020-09-21 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Quem, como eu, nunca viveu num país sem cuidados de saúde universais e gratuitos poderá ter dificuldade em compreender a importância do Serviço Nacional de Saúde (SNS). A verdade é que o SNS é uma das maiores conquistas do Portugal democrático.
Nos últimos meses, o SNS enfrentou desafios inesperados e significativos. A pandemia COVID-19 colocou uma pressão inédita sobre alguns serviços, afastou inúmeros profissionais por se encontrarem infetados ou pertencerem a grupos de risco e forçou a adoção de novos procedimentos que permitissem o atendimento aos doentes em condições de enorme adversidade.

A pandemia expôs a grande resiliência do SNS e dos seus profissionais, ao mesmo tempo que tornou evidentes algumas das suas principais disfunções. Defender e valorizar o SNS passa por identificar o que pode ser melhorado, incentivando a participação e o debate público para a sua transformação.
A acessibilidade aos cuidados de saúde é um dos problemas mais sérios do SNS. Nas últimas semanas surgiram relatos da dificuldade de acesso a consultas nos Centros de Saúde. Entre as reações, umas vezes genuínas e outras vezes politicamente mal-intencionadas, lia-se o descontentamento com os médicos a quem eram atribuídas responsabilidades por essa dificuldade no acesso às consultas. Em alguns fóruns, insinuava-se que os médicos de família aproveitaram a pandemia para deixar de trabalhar. A acusação, vil e infundada, tem potencial para gerar equívocos na perceção dos cidadãos. Equívocos que importa clarificar.

No modelo atual, os médicos têm um papel muito limitado na gestão do seu trabalho. A acessibilidade aos cuidados e a regularidade da marcação de consultas não são decidas pelos médicos mas sim pelo número de utentes que lhes são atribuídos, pelo tempo que lhes é concedido para os atender, pelas tarefas extraordinárias que sistematicamente lhes pedem e pela desorganização administrativa que consome o tempo e a paciência de quem trabalha. Ou seja, se a lista de utentes do seu Médico de Família for muito extensa, é certo que será impossível conseguir agendar consultas com a periodicidade que seria necessária; se essa lista for muito extensa, então os pedidos urgentes de atendimento também serão mais frequentes e ainda mais difíceis de corresponder; se entretanto pedirem ao seu médico para telefonar diariamente a todas as pessoas infetadas com o vírus da COVID-19, então o tempo para consultas diminui; se também pedirem ao seu médico para fazer visitas domiciliárias extraordinárias a lares de idosos ou instituições similares, então o tempo disponível para o atender ainda diminui mais; se também lhe pedirem para responder a e-mails quando todo o horário já está reservado para consultas, então é possível que alguns desses e-mails fiquem sem resposta.

Tal como nos Centros de Saúde, também nos hospitais é, muitas vezes, atribuído a cada médico um número de doentes brutalmente superior ao que seria adequado para garantir o acompanhamento. Este problema é agravado por um modelo de financiamento dos hospitais que valoriza o número de atos clínicos realizados e não os ganhos em saúde que as instituições efetivamente geram.
A acessibilidade aos cuidados de saúde também é dificultada pelas gigantes assimetrias geográficas.
O acesso à medicação varia de região para região e, dentro da mesma região, de hospital para hospital. Um doente de Lisboa pode receber gratuitamente medicamentos que um doente do Porto tem que pagar (e vice-versa), o que é iníquo e é incompreensível.

Numa mesma região, há hospitais que não contribuem minimamente para assegurar o serviço de urgência dessa área geográfica enquanto outros hospitais têm que garantir o funcionamento da urgência prejudicando o tempo de consulta externa ou de cirurgia que deveriam dedicar aos seus doentes.
Se tentou agendar uma consulta e não conseguiu, lembre-se que a responsabilidade não é do seu médico. Provavelmente, ele também está frustrado e angustiado por não conseguir atendê-lo com a periodicidade e a rapidez que deseja. Não será por acaso que o burnout, a ansiedade e a depressão estão a aumentar de forma galopante entre os profissionais de saúde. A falta de autonomia e o défice de participação dos profissionais na gestão do SNS são seguramente algumas das causas que mais contribuem para isso.

Sejamos claros: o SNS presta um serviço absolutamente extraordinário ao país, contribuindo efetivamente para reduzir as assimetrias sociais e para garantir a coesão, a segurança e a paz social. Não há qualquer dúvida de que a maioria de esquerda está empenhada nisso. Mas para que o SNS continue a cumprir a sua missão é necessário que os cidadãos sejam mais exigentes com aqueles que o gerem.
O atual modelo de gestão, assente na sobrecarga das listas dos médicos, está esgotado e necessita de revisão. É tempo de investir na humanização dos cuidados, na valorização dos profissionais e na efetiva modernização do SNS.

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