Correio do Minho

Braga, sábado

Ano Novo: escolhas e decisões

Menina

Ideias

2017-01-06 às 06h00

Margarida Proença

Ao longo de quase cinco anos de recrutamento e seleção para a alta administração pública, envolvendo a análise de milhares de candidatos no geral com elevadas qualificações académicas e percursos profissionais muito relevantes, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi para a seleção adversa associada ao género para os cargos mais elevados. Por outras palavras - as mulheres candidatam-se a cargos de segundo nível, não a cargos de primeiro nível. Este resultado é válido do ponto de vista estatístico, não quer dizer que não haja, obviamente, exceções.

Pesquisando na literatura por um assunto completamente diferente, encontrei dois artigos interessantes, de certa forma relacionados entre si através do que se pode entender como “imagem social”, incluindo-se aqui a forma como nos vemos a nós próprios, e como pensamos e interpretamos a forma como os outros nos vêm. Dirão que isto tem a ver com a psicologia, com a sociologia, talvez até com a antropologia, com a comunicação, mesmo com a gestão de recursos humanos, repudiando desde logo como menos relevantes as palavras de uma economista. Mas não seria correto; na verdade, a investigação económica tem vindo a entrar em áreas cada vez menos típicas do interesse dos macroeconomistas. Vale a pena notar que todos os dias fazemos escolhas que determinam as decisões que tomamos, e que têm profundo impacto económico.

Bursztyn e Jensen, num artigo mesmo acabado de vir a público, chamam a atenção para uma série de experiências económicas que confirmam a importância da pressão social. Nada que não fosse já conhecido; uma das histórias mais citadas até pelos media é o “keeping up with the Joneses”. Peço desculpa, mas o inglês não tem tradução direta neste caso; a designação, dizem, tornou-se famosa a partir de uma banda desenhada da primeira década do século XX, e onde se brincava com o esforço feito para “fazer como o vizinho”, ou “não fazer, ou ter, menos do que o vizinho”.

No fundo, é o que nos força a ter um carro tão bom ou melhor do que o dele, uma casa conforme o socialmente indicativo de estatuto local, e o mesmo para as férias, para as roupas, para a escola onde os filhos andam, etc. O estatuto social e o prestígio associado pode ser lido com base numa série de variáveis, entre as quais o consumo exagerado, em particular de bens de luxo, como bem reconhecem os produtores que por essa via induzem a moda, inclusivamente em produtos de tecnologia avançada. O resultado final pode traduzir-se em menos poupança, menos investimento e em níveis de produção socialmente ineficiente, como diversos autores têm sublinhado.

A pressão social , ou a forma como é lida, pode determinar a contratação de trabalhadores que não sendo os melhores , indiciem poder pessoal ou político de quem as faz; pode justificar um menor esforço na prossecução de um nível educacional mais elevado se tal for entendido como um menor esforço de integração num determinado grupo a que o adolescente pertença ou queira pertencer; a disponibilidade para desempenhar cargos de maior exigência pode ser lida, em termos sociais, como menor disponibilidade para acompanhar os filhos, ou ainda como uma ameaça latente, num quadro de competitividade intrafamiliar, ou mesmo de sinalização a relacionamentos futuros.

Em todos estes exemplos, e muitos mais haveria, a pressão social, pelo menos a sua leitura em termos culturais, determina escolhas e decisões que podem afetar negativamente os resultados pessoais, mas também a economia como um todo.
Isto não significa que a pressão social seja negativa em si mesma. Outras experiências sugerem que os trabalhadores são mais produtivos se o seu esforço for observado, o reconhecimento for públicos, e se interagirem com trabalhadores mais eficientes e mais produtivos. Trabalhar num meio mais exigente induz comportamentos mais exigentes, e a procura de novas competências.

A formação das crenças acerca de si próprio, e dos outros, reflete ainda quer a cultura, quer a pressão social. Bordalo e o seus co-autores, também um artigo de dezembro de 2016, mostraram que os estereótipos acerca do género constituem uma razão para as distorções na crença das capacidades individuais, com os homens sendo mais fortemente confiantes nas suas capacidades.
Bom ano, escolhas corretas, decisões adequadas.

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