Correio do Minho

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Ano novo para mudar de vida?

Liderar Gerações Por Portugal

Ano novo para mudar de vida?

Ideias

2020-01-12 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Eis-nos em mais um novo ano, já lá vão perto de duas semanas. Como é de tradição, na noite da passagem de ano, comemos doze passas, bebemos uma taça de champanhe (pelo menos…) e compusemos a nossa maior esperança em 365 dias de mais felicidade, mais saúde, paz e amor entre os homens. Arredámos fantasmas, crises, défices, governos, numa noite longa de folia e de foguetório sem fim, ou apenas de pacatez caseira, como se para enterrar o passado e não houvesse amanhã. As doze badaladas de cada 31 de Dezembro constituem, invariavelmente, um momento mágico que teimamos em valorizar, esperando que, daí para a frente, como por sortilégio, os defeitos se tornem virtudes e as tristezas se transmutem em alegrias.

Contudo, no segundo dia do novo ano, descemos melancolicamente à terra e demo-nos conta, com desilusão, que os pecadilhos do ano que findou se avolumam no ano que, criança ainda, dá os primeiros suspiros.
Ano novo, vida velha. A vida dos aumentos, da carestia, do desequilíbrio entre o que vamos ganhar mensalmente e o que vamos ter de disponibilizar para fazer face ao quotidiano. Aumentos que, em regra, excedem o valor previsto para a inflação, pelo que se conclui facilmente pela perda do poder de compra dos portugueses, sejam eles trabalhadores no activo ou pensionistas.

Neste novo ano, e como sempre, assistimos à velha lengalenga dos aumentos de bens e serviços, para tapar os “buracos” que os banqueiros e os financeiros cavaram por gestões desastrosas. E para outras manigâncias. Os portugueses vão continuar a pagar a crise que não provocaram, perdendo poder de compra e competitividade interna. Sempre a bem da Nação, como se diria no tempo da “outra senhora”. Combustíveis, eletricidade, telecomunicações, pão, rendas, carne de porco, tabaco, bebidas alcoólicas, automóveis e tantos outros bens e serviços foram objecto desse eufemismo chamado “actualização”, que acaba por ser, ano após ano, tão sacramental como assistir à transmissão das peregrinações de Fátima em cada 13 de Maio.
Pelo meio, assistimos à suborçamentação das receitas para que, no fim do ano, o excedente orçamental seja ainda maior que o previsto e Centeno possa ficar na História da Democracia Portuguesa, como o ministro das Finanças do superavit…

E já que falamos no excedente orçamental de mais de 500 milhões de euros, poderá ser sensato utilizá-lo para abater a dívida pública ou para ficar como “almofada” para eventuais crises que venham a verificar-se no futuro. Mas não deixa de ser paradoxal, que haja dinheiro sobrante, enquanto os serviços públicos estão pelas ruas da amargura, sobretudo no caso gritante do Serviço Nacional de Saúde, que todos afirmam defender mas que tem sido absolutamente esquecido ao longo dos anos, descapitalizado quanto a recursos materiais e a meios humanos e que ainda está a pagar, como aliás todos os sectores da economia e da sociedade, a destruição do país operada pela troika e pelos seus capatazes internos, entre 2011 e 2015.
O país tarda em recompor-se e nunca mais será o mesmo, desde aquela célebre vanglória de “irmos além da troika”…

Ter um excedente orçamental quando simultaneamente temos escolas a cair de podres, hospitais sem dinheiro para adquirir meras compressas, palácios da justiça a necessitar urgentemente de obras há dez anos, convenhamos que não se afigura muito aceitável e curial. Mas para o primeiro-ministro António Costa, como fez questão de sublinhar no debate desta semana sobre o Orçamento de Estado, o excedente não é uma imposição de Bruxelas, é uma necessidade do país - para se libertar da pesada dívida pública, para preparar a próxima crise internacional.
No início de um novo ano, os desejos são imensos, as expectativas enormes, os projectos sem fim, as esperanças em algo de positivo não têm conta. Certamente, chegaremos ao fim de 2020 cm a sensação de um ano perdido, com alguma frustração e muita desilusão pelo que ansiámos como utopia e com o que conseguimos realizar.

Num mundo inseguro e perigoso, com loucos varridos a governar as principais potências, dos Estados Unidos à China, à Rússia e ao Irão, com um grau de imprevisibilidade nunca visto, porque a qualidade e a ética destas lideranças desceram abaixo do nível zero, os objectivos são sempre marcados pela perigosidade e pela incerteza na sua concretização.
Que, pelo menos, haja saúde, boa disposição e algum dinheiro na carteira, para se custear uma vida que importa viver para lá das míseras preocupações da política ou do futebol, no seu radicalismo, conceitos que dividem e afastam os homens, o que também acontece com os extremismos de carácter religioso. Apostemos mais fortemente na cultura, na música, no cinema, no teatro, no bailado, na literatura e na poesia, áreas que aproximam as pessoas, que enchem as almas, que aquecem os corações e servem de cimento às comunidades que queremos construir, mais evoluídas, mais conscientes, mais livres, mais humanas, no fim de contas.
É esse o principal desejo para este 2020, que está a começar!

PS. E lá tivemos na sexta-feira, a aprovação na generalidade do Orçamento de Estado para 2020, pela abstenção. Bloco e PCP desligaram-se do governo e do Partido Socialista e vão prosseguir, no Parlamento, nos sindicatos e na rua, as suas agendas reivindicativas, com o que ganham mais politica e eleitoralmente do que andarem atreladas ao que se chamou ”geringonça”. Ou a “geringonça” agora é a da abstenção, que cresceu com a inclusão do PAN e do Livre. Agora todos batem em Costa, em Centeno e no governo em geral. É o governo contra todos e todos contra o governo. Os portugueses não estão seguros de que tenhamos governo para a legislatura, apesar da capacidade negocial e da resiliência do chefe do Executivo.
Se calhar a ideia que fica é que António Costa deveria apostar mais na segurança e na estabilidade, garantindo o apoio de uma solução maioritária no Parlamento para os quatro anos de legislatura. A não ser que esteja a criar condições para forçar eleições daqui a dois anos e reclamar então a maioria absoluta, esgotadas outras soluções de base parlamentar!...

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