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Ano Novo, Vida Nova?

O sentido da técnica e do humano e a política científica

Ano Novo, Vida Nova?

Escreve quem sabe

2018-12-28 às 06h00

Carlos Alberto Pereira Carlos Alberto Pereira

“Procurai deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrastes.”

Baden-Powell, in Última Mensagem do Chefe



Na sua última mensagem dirigida aos escuteiros, o fundador redige aquilo que se convencionou chamar o seu testamento espiritual, nela encontramos o que se espera de todo e qualquer escuteiro: que sejamos capazes de deixar um mundo melhor do que o encontramos, isto é, que e cada um de nós contribua para a construção de um mundo melhor.
B.-P. ainda acrescenta: “Creio que Deus nos colocou neste mundo encantador para sermos felizes e apreciarmos a vida. (…) Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros”, ao centrar a sua mensagem no que espera de nós e na forma de o realizar, ele, em duas frases, define toda a essência do Escutismo.
Se, hoje, Baden-Powell nos apresentasse os votos de um Novo Ano, certamente que não andaria longe disto, naturalmente recordar-nos-ia que isto é o caminho de toda uma vida, e não de um momento, mas sim uma série infindável de pequenos momentos, umas gotas, como as da chuva que sempre que caem na terra a tornam fértil, que alimentam os rios que enchem os mares.
Contudo, cada uma delas, isoladamente, parece ser insignificante. Talvez enriquecesse este seu voto com o pensamento de Madre Teresa de Calcutá “o oceano não seria o que é se não recebesse todas as pequenas gotas de água” e ainda “o mais importante não é a quantidade que se dá, mas o Amor que se coloca no que se dá”, enfatizando a relação com os outros. Talvez recorresse à célebre citação do astronauta Neil Armstrong o primeiro homem, e primeiro escuteiro, a pisar a superfície lunar:
"É um pequeno passo para [um] homem, um salto gigante para a humanidade", ilustrando desta forma a diferença de força e de dimensão entre o “eu” e o “outro”.
Mas talvez Baden-Powell recorresse ao magnífico autor de língua portuguesa, o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade1, e ao seu poema:

Cortar o Tempo
“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
...Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente…

para você, desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
...A esperança renovada.

Para você,
desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe
desejar tantas coisas
mas nada seria suficiente…
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada
minuto, rumo a sua felicidade!!!”


1Há algumas vozes que defendem que este texto não é de autoria de Drummond de Andrade, mas sim Roberto Pompeu de Toledo (escritor e jornalista - São Paulo – Brasil) ou de Vilma Galvão (poetisa - Piracicaba – São Paulo – Brasil) estes dois escritores estão vivos e a Vilma Galvão reclama a autoria do poema afirmando que o título do mesmo é “Feliz Ano Novo”. (Foi feito um pedido sobre a autoria do texto à Academia Brasileira de Letras).

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