Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Antecedentes…

Perdidos e achados

Antecedentes…

Ideias

2018-11-05 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há momentos, há mesmo muitos momentos que aparentam colocar a Cidade, ou melhor, o debate e a reflexão sobre a mesma Cidade como se não existisse “véspera do dia de amanhã”. E que esse dia emerge do nada, como se tudo se iniciasse ciclicamente, assim como os dias se repetem da mesma forma cíclica.
Na verdade, há muitos momentos que todo o passado da Cidade – que mais não é do que o momento que precede o presente, significando todos os dias passados e ocorridos, sem excepção ou secundarização – parece reduzido a uma dicotomia património/dissonância, centran-do-se a discussão (e a participação) na necessidade e reclamação da defesa do património (que aqueles anteriores ao tempo presente souberam erguer e perenizar) ou, em oposição, no desejo e formulação da correcção e/ou demolição de dissonâncias que o tempo possibilitou e “arrastou”.

Sendo certo que talvez estas duas realidades sejam aquelas de maior visibilidade, aceitação e compreensão, não menos verdade é que o tempo na cidade não se esgota no que construímos e perenizamos como referência, no que edificamos e necessitamos de corrigir. Porque, o território é, incontornavelmente, marca do tempo e reflexo de muitas marcas que vão ficando e influenciando.
Por muito que se reclame o tempo futuro, por muito que se deseje alcançar o dia de amanhã sem compromissos, a cidade é um processo contínuo em que a decisão de hoje é antecedente do dia de amanhã (sendo certo que o inverso também é verdadeiro: a decisão de hoje pode ser património ou dissonância do dia de amanhã).
Como tal, é importante, mais ainda, fundamental saber ler a Cidade no seu Tempo e tempos e perceber que, nesta mesma Cidade, não existe só intenções, planos, projectos e obras mas também antecedentes, nome discreto para tudo o que a Cidade arrasta como seu…

E quais as formas que moldam estes mesmos antecedentes? Alguns abaixo…

1. A cidade é feita de múltiplos processos de negociação e concertação de posições na construção e maturação de intenções e operações urbanísticas. E estes processos negociais e de concertação demoram tempo, por vezes, muito tempo… o que implica uma constante actualização e ajustamento ao novo contexto e circunstância já que, se tantas vezes estes processos são materializados em documentos formais e válidos, outros tantos são fruto de concertação verbal e informal (nomeadamente, no quotidiano profissional entre autores de projectos e técnicos municipais, decisores e promotores) (tema este que poderá motivar um futuro texto sobre os modos e procedimentos que se registam na formulação e concretização de decisões e compromissos);
2. A cidade é feita de contexto e de circunstância. E se é verdade que os novos contexto e circunstância têm forçosamente de revelar um grau de liberdade e autonomia proporcionais à própria gestão da Cidade, não menos verdade é que devem considerar e incorporar (não como obrigatoriedade mas como “informação a ter em conta”);
3. A cidade demora tempo a ser concretizada, não se edificando “quando e onde interessa”. E, sobre esta realidade, vem à memória, de forma mais visível, o tema das “empenas” dos edifícios: quantas vezes criticamos, opinamos sobre a permanência no tempo das empenas cegas (tantas vezes, apenas “forradas com material impermeabilizante”), não tratadas do ponto de vista do “desenho arquitectónico”, e achamos que foi uma má decisão aquela construção (porque, no fundo, desfeia a paisagem) quando, afinal, trata-se tão só do tempo da Cidade e do seu desfasamento de concretização (e um dia “chegará a construção que colmatará”…);
4. A cidade é feita de processos, actores e decisões formais que se perenizam no tempo. E esta diversidade, sendo de alguma forma um risco, é uma das suas grandes virtudes e razão de dinamismo. A cidade é feita de decisores, de diferentes pensamentos e que deixam a sua acção expressa de forma muito distinta. Que não se anula por aqueles que chegam a seguir, antes devem ser tidos em conta criticamente…
E, nas decisões formais e vinculativas perenizadas no tempo, outra figura vem à memória: a operação de loteamento e as construções previstas no mesmo (que se concretizam num tempo tão longo que, por vezes, a Cidade esquece-se…) são elementos indisfarçáveis;

E tantos outros antecedentes ficam por tratar… na verdade, a Cidade e o tempo são indissociáveis. E, mais do que isso, são incontornáveis e precisam de ser assimilados e compreendidos: a Cidade necessita de tempo para assimilar e acomodar a sua construção e transformação. O tempo ajuda a Cidade a autocompreender-se. Seja reafirmando opções, seja mudando perspectivas. Seja ajustando pensamento. Porque é disto que trata a Cidade: dinamismo, diversidade, desenvolvimento. Na construção do futuro sem esquecer o passado. Aceitando a permanência ou a transformação. Exigindo sempre coerência e justeza. Na argumentação e na decisão.
Afinal, a Cidade foi, é será sempre feita de pessoas, pelas pessoas e para as pessoas.

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