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Antropoceno avant la lettre: a Sétima Época da Terra

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Antropoceno avant la lettre: a Sétima Época da Terra

Escreve quem sabe

2021-04-17 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Desde que o conceito do “Antropoceno” foi introduzido no início deste milénio pelo químico neerlandês Paul Crutzen – para referir a possibilidade de termos já entrado no pós-Holoceno, ou seja, numa nova época cronogeológica marcada por uma crescente instabilidade climática e, sobretudo, por a espécie humana se ter tornado num agente geofísico de dimensão planetária – que a discussão de eventuais noções precursoras suas tem sido levada a cabo.
Alguns argumentam que essa controvérsia não tem grande razão de ser porque o conceito surge vinculado ao paradigma científico de inquirição da Terra como um Sistema, desenvolvido entre finais do século XX e inícios do século XXI, sendo, por consequência, inédito. Outros pretendem haver uma história multissecular de noções análogas que importa conhecer para estabelecer a sua relativa originalidade.

Entre os partidários da última visão há quem queira fazer remontar essa genealogia ao conceito de “Sétima Época” introduzido pelo grande naturalista francês Georges-Louis Leclerc (1707-1788), mais conhecido como Conde de Buffon (após 1773) no seu ensaio Épocas da Natureza (1778), inserto na sua monumental História Natural, projetada para ter 50 volumes, dos quais só conseguiu publicar 36 em vida.
Buffon, vale recordar, foi pioneiro não somente no esforço de datação da idade da Terra com base em critérios científicos – experimentos de cronometragem do arrefecimento de bolas de ferro incandescentes cujos resultados permitiam inferências analógicas para o arrefecimento das camadas geomórficas do nosso planeta – como também na descrição da sua história nos termos de idades geológicas.

Diferentemente de James Ussher que, em 1650, baseando-se em acontecimentos relatados na Bíblia, determinou que a Terra tinha sido criada precisamente ao meio-dia do dia 23 de outubro de 4004 a.C. – estimativa sublimemente parodiada por Eça de Queiroz no conto “Adão e Eva no Paraíso” (1897) – Buffon calculou que a idade da Terra rondaria uns 10 milhões de anos (acredita-se, atualmente, ter cerca de 4.6 mil milhões), mas, temendo que esse número fosse inconcebível para a maioria dos seus contemporâneos, ainda impreparados para pensar escalas temporais muito superiores a duas ou três gerações humanas, optou por propor apenas 74 mil anos, uma idade ainda assim doze vezes superior à apurada por aquele arcebispo irlandês.

À semelhança dos sete dias da criação divina, Buffon reconstruiu a história natural da Terra em sete épocas. A primeira correspondente à sua génese e aquisição da morfologia esférica. A segunda como aquela em que a matéria fluida se consolidou e se formou a rocha interior do globo assim como a crosta externa. A terceira como a das águas a cobrirem toda a superfície planetária. A quarta relativa ao abaixamento do nível das águas e à grande atividade vulcânica. Na quinta, segundo ele, o mundo começou a ficar povoado por grandes animais nas zonas mais temperadas. Na sexta deu-se a formação dos atuais continentes. Na sétima, por fim, “o poder do Homem auxilia as operações de Natureza”.

Parece razoável admitir que a assinalada última época, 222 anos antes do conceito de Antropoceno ter sido proposto, revela que Buffon foi certamente um dos primeiros a aperceber-se do crescendo de poder humano para provocar extinção de espécies, modificar paisagens naturais e alterar as condições climáticas numa escala nunca antes vista. Todavia, ele nunca reivindicou que esse poder pudesse ser equiparado ao de uma grande força natural, o aspeto mais distintivo do Antropoceno.

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