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Ao pé coxinho

“Esforço orçamental” português para a saída da crise Covid-19 é um dos menores da zona euro

Ao pé coxinho

Escreve quem sabe

2020-12-13 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Orgulhosos do apelido, dois dos meus amigos não abdicam de ser tratados por «Pereira». Ele é Pereira para aqui, Pereira para ali, ó Pereira isto, ó Pereira aquilo, e por aí fora. Por sorte não se conhecem, que tão zelosos são da pereirice, que temo que se envolvessem em duelo, reclamando cada um a exclusividade de nome assaz distinto.
Ontem sai-me o Silva: ó pá, diz ele, tens visto o Pereira? Ao que lhe replico: qual? Pois, tens razão: o Pereira preto! Não sei se ruborizei, se empalideci, mas deu-me cá uma oura que me vi desmaiado. Procurei em redor quem nos pudesse acoimar de racistas. Bem calhou, que não havia orelha sensível de plantão.
Sim, para que conste – um dos Pereiras é branco, outro é negro. Claro que podia ser, digamos, um para o gordo, outro para o trinca-espinhas, um para o guedelhudo, outro para o careca, um para o mulherengo, outro para o amaricado ou homerengo, um para o cretino outro para o fino. Em resumo, desse por onde desse, poderia aparecer sempre quem nos passasse uma escala de etiqueta, quem nos pusesse a nu um preconceito supremacista de qualquer natureza.

Quão depreciativa é a palavra «negro»? A palavra em si mesma, não o tom iracundo ou amesquinhante que a encape, não a frase que se estruture em seu torno. Consta que na América a teriam banido, pela conotação esclavagista, aceitável sendo, contudo, o emprego da palavra preto – black. Tempos que já lá vão, mas bom professor tive, humaníssima pessoa, que nos ensinava que a palavra «preto», essa sim, era pejorativa.
Que o conceito de raça com o seu cortejo de excrescências fique para trás, mas ainda que o substituamos pelo conceito paralelo de subgrupo étnico-antropológico, encontraremos quem nos classifique como caucasóides ou europóides, negróides, australóides, até mongolóides, sem que chumbe em prova cega de boas maneiras.
Terá perguntado o árbitro: quem foi? Terá respondido o assistente: o negro! Comunicação funcional, pessoa identificada de forma expedita quanto ao protagonismo de uma ocorrência, e siga o jogo. Quem foi? – poderia ter perguntado o árbitro. O tatuado, o barbudo, o careca, o baixinho, ou o 47, se o assistente tivesse podido visualizar o número do jogador.

Porquê o negro? – reacção destemperada do adjunto. Não será ele o racista? Não será ele o não-habilitado à vida social? Cartão vermelho que o organismo desportivo despenaliza, prestando um péssimo serviço à convivência sadia que urge que implementemos.
Quantas vezes não ouvi- mos, negro referir-se a negro, como preto/negro esperto ou preto/negro burro? Bem sei que haverá purista lixiviado que me replique que, tão entranhado está o estereótipo, que o usa quem por ele é abusado. Tretas, senhores progressistas de meia tigela.

Mutatis mutandis, na outra semana era um activista negro que declarava, citando, «é preciso matar o homem branco». Houve brado, sim senhor, desnecessário, mas também houve insigne comentador de sexta-feira que explicou que a frase não podia ser extraída do contexto, e que a morte em causa era simbólica, não literal. Estou para ver se desta vez se insurge contra o destempero retroracista do camaronês.
Ai que é preciso ter cuidado com o que se diz, opina um pináculo dos treinadores nacionais, conhecido por atalhar a direito e não ter papas na língua. Eu, que raramente ponho maldade no que digo, embora tenha pouca paciência para peraltices de gente de vira-vento, pois eu passeio-me por aí ao pé coxinho, não vá meter a pata em poça que outros sujam. Terei sempre um pé enxuto para mostrar. Talvez cole.

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