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Aprender, ler, escrever

Caro Professor!

Aprender, ler, escrever

Voz aos Escritores

2024-05-24 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Sabemos como é: um dá uma ideia, outro apressa-se a rebatê-la, depois outro faz a síntese, e assim se progride no conhecimento e no estabelecimento das leis, entre as quais as «leis» do pensamento. Se pegarmos em Popper, relevaremos as conjeturas e as refutações, anularemos a importância da indução, e veremos de que forma o ser humano estabelece hipóteses sobre o mundo empírico. Ensaio e erro, eis a proposta hoje universal para a resolução de problemas. Hume ou Russell dirão de forma diferente, mas Piaget e Vygotsky parecem ter estabilizado as coisas, um no campo construtivista, outro no âmbito sociocultural. O que sabemos, a partir das suas ideias, é que a aprendizagem se realiza ininterruptamente ao longo da nossa vida, e que o desenvolvimento cognitivo da criança se realiza por etapas, entre as quais se releva a das hipóteses e do formalismo, aí pelos 10-11 anos.

Com algumas contestações de permeio (Pinker, por exemplo), desde que Sapir-Whorf propuseram a ideia de que a estrutura e o vocabulário de uma língua vão paulatinamente modelando a forma como percebemos e compreendemos o mundo, determinando, no limite, o próprio pensamento, o interesse pelas aquisições linguístico-gramaticais cresceu, e não é rara a discussão em torno das necessidades do ensino das línguas, da sua morfologia e sintaxe, suspendendo hipóteses inatistas que complicariam a coisa (cf. Chomsky e escola generativista). A este propósito, o que sabemos é que a criança, saindo do estádio cognitivo concreto, entra, pelos 10-11 anos, num estádio formal, em que se sente já capaz de trabalhar linguisticamente ideias de condição, ordem, probabilidade, desejo, hipótese, entre outras também relevantes. Saída de um universo linguístico fundamentalmente oralizante, necessita agora de confrontá-lo com as necessidades da escrita, o que supõe o conhecimento de códigos linguísticos explícitos.

Da prevalência do uso do modo indicativo, suficiente para a resolução dos seus problemas, salta-se para as necessidades que apenas o modo conjuntivo é capaz de satisfazer. A aprendizagem da conjugação verbal é, neste momento, fundamental, sem a qual o jovem estará deficitário na elaboração do seu pensamento. Em português, o modo conjuntivo é constituído por três tempos: presente, imperfeito e futuro. Sabendo-se da existência de um grande conjunto de verbos irregulares, que mobilizam formas muito diversas e difíceis de adquirir, a par da existência de um futuro que colide, não poucas vezes, com um infinitivo pessoal também ele complexo, fácil é concluir terem os nossos jovens uma tarefa muito árdua à sua frente.

Naturalmente, podendo fugir às dificuldades usando fórmulas de indicativo, fá-lo-ão em qualquer oportunidade. O problema é que, linguisticamente falando, e assumindo a teoria de Sapir-Whorf, é do domínio profundo da estrutura da língua e da composição gramatical que depende um mais perfeito conhecimento do mundo. E nota-se, neste ítem fundamental, um grande défice. Perguntam alguns para que serve o estudo da gramática, para que serve a leitura de bons livros, enfim, para que serve a literatura. Eu direi que um correto domínio da língua, que passa pelo aprofundamento gramatical, pela leitura dos bons autores, do seu universo ideológico e linguístico, é insubstituível, e apresenta-se como o elemento fundamental para o êxito na vida. Por isso, meus queridos amigos, jovens e adultos, leiam muito, escrevam, se tiverem esse gosto, pensem com todas as possibilidades modais, indicativas, conjuntivas, imperativas e outras, aprofundem o conhecimento gramatical da língua. Pessoalmente, acredito que o nosso pensamento se desenvolve com estas fundamentais aportações, e por isso relevo o trabalho dos professores, mais especificamente os de português, que têm um trabalho hercúleo pela frente.

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