Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Aqueles meninos de Chamba…

Um convite da Comissão Europeia para quem gosta de línguas

Conta o Leitor

2014-08-16 às 06h00

Escritor

PINTO COSTA (Ex- alferes Costa)

Era domingo de manhã. Pelas nove horas, os oito cipaios foram os primeiros a chegar, ocupando um dos lados do cubo de cimento onde se implantava um mastro de sete metros de altura. Exibiam a velha espingarda mauser na posição de à-vontade, e fardavam o habitual uniforme beige torrado, em condições de passar na revista militarizada do chefe de Posto.

Minutos depois, dez soldados de calção verde e camisa camuflada posicionavam--se de frente, no lado oposto, com a inseparável companheira G-3. Porque o sol já queimava e a cerimónia podia esperar, o alferes e o administrador sentiram peso a mais na barriga das pernas, e lá ocuparam o seu lugar com alguma displicência.

Estava tudo a postos para o hastear da bandeira; era só esperar um instante pela entrada da banda de música que fazia os últimos preparativos na pista de aterragem, a cinquenta metros dali. A pontua-lidade que já então era muito linda, obrigava a prescindir da perfeição e a avançar, mesmo que depois algum deta-lhe resultasse menos bem. Um momento de ansiedade… e eis que do lado nascente entra a banda a marchar ao toque de tambores improvisados, feitos de latas de conserva, até ocupar o último lugar vago à frente das ali autoridades.
Antes de mais importa esclarecer aqui a composição e o fardamento da banda, sem a qual a cerimónia do hastear da bandeira haveria de ter seguramente dignidade, mas não teria nem brilho, nem alegria, nem presença de população. A banda de música era constituída pelos meninos e meninas de Chamba; cerca de trinta. E todos queriam muito participar. O problema era o fardamento, porquanto a dignidade da cerimónia impunha que todos cobrissem o tronco. Compreendia- -se o rigor desta exigência, mas Deus agravou a dificuldade quando decidiu que, em Chamba, resolveria as coisas ao contrário: daria a roupa conforme o frio…

- Meu furrié, eu não tem camisa para a bandeira;
- Não faz mal, pede à tua mãe.
- Minha mãe também não tem camisa;
- Não faz mal, pede ao teu irmão.
- Meu irmão precisa de camisa para a bandeira, furrié;
- Não faz mal, pede à tua irmã; e se ela não tiver pede ao cipaio… pede à tropa.
O António Capelo era direto, repetitivo e curto. Mas pedagógico também, na medida em que dialogava com gente muito pequena, habituada a vencer as dificuldades que já cercavam a aventura da sua existência. Embrulhar os desafios com primores de elegância não era especialidade do furriel Capelo, nem isso teria contribuído para melhorar o desempenho daqueles miúdos ávidos de crescer. O objectivo estava atingido: motivá-los.

Os meninos e as meninas marcharam descalços, mas estavam todos ali perfilados e de tronco coberto, conforme mandavam as regras instituídas. Uns vestiam camisa até à cintura, outros até aos joe-lhos, e dois ou três quase até ao tornozelo. Para o caso não importava a uniformidade das cores que - agora velhas - ti-nham saído há muito do arco-irís.
- Vamos hastear a bandeira. Sentido!
“Heróis do mar, nobre povo…”

Os meninos e as meninas de Chamba cantaram o hino nacional sem hesitações, do princípio ao fim. Não tinha nada que enganar… Comeram as sílabas aos egrégios avós, que na verdade não eram palavras que se cantassem debaixo de tanto calor! De caminho trocaram todos os ós por ás, e terminaram com mais entusiasmo do que Alfredo Keil escreveu no final da música. Resultado fantástico! Este hino nacional cantado há 42 anos por crianças de sotaque jauá, se gravado, faria hoje sucesso em qualquer encontro de portugueses que passaram por Moçambique, mais exatamente pelo Niassa norte. Inesquecível! Tanto assim que de vez em quando, o autor destas memórias dá consigo a cantar um verdadeiro património imaterial. E, sublinhe-se de novo, sem quebra de dignidade.
Destroçaram todos; mais ruidosamente os meninos cantores.

Ainda faltava muito tempo para o meio--dia. Era o momento dedicado ao desporto automóvel que meninas e meninos aguardavam com enorme e barulhenta ansiedade. Parece impossível! Conseguiam apinhar-se todos no Land Rover do administrador, desafiando as mais elementares limitações de espaço, sem conflitos adivinháveis. Depois de percorrida a machamba a velocidade controlada, chegava o momento verdadeiramente desportivo na pista de aterragem, com os miúdos a exigir ao piloto do jipe que le-vantasse as rodas como os aviões. Na reta final da prova, quando o Sanches inventava curvas mais fechadas, o alferes que dividia o seu lugar na viatura com meninos extasiados, era então um navegador silencioso… Traduza-se: mais preocupado que arrependido! A esta distância custa a acreditar que um tal desporto - amado por crianças muito carentes e praticado pela inconsciência pouco adulta - não tenha feito vítimas apesar de tanto risco!

A manhã prosseguia com duas equipas atrás da bola, sem necessidade de árbitro, mas com fartura de golos para que todos tivessem oportunidade de festejar. Neste sentido, os guarda-redes davam um contributo generoso integrando-se constantemente no ataque. O resultado final pouco importava, e por isso ninguém sabia dizer ao certo quem ganhou. Pergunta idiota! Na realidade, que interesse teria registar os vencedores?
As operações de domingo estavam concluídas sem falha. Cansados como peregrinos em fim de romaria, tomavam o pequeno quartel sem alterar a paz, ocu- pavam as sombras disponíveis e por ali ficavam a aproveitar a fantástica vista sobre o Rovuma. Entretanto, um inesperado e virtuoso silêncio invadia aqueles olhos, onde se podiam ler pensamentos associados ao meio dia. Acreditavam que tinham acordado o nosso cozinheiro a horas, com tambores e música de Lisboa; acreditavam que tinham convencido os nossos soldados de que, ao domingo, o cozinheiro não era básico mas “gente grande”, e acreditavam finalmente que o nosso furrié lhes dava razão porque pensava como eles. Tinham por isso suficientes e boas razões para confiar que o rancho não esqueceria os silenciosos pupilos do aldeamento. E valia a pena pensar assim…

Felizes ao menos por um dia, aqueles meninos de Chamba eram iguais a todos os outros, exceto nos cuidados de saúde, na escolaridade, e nos apoios sociais que rigorosamente não tinham. Que enorme diferença!



Nota: Texto escrito a pedido do comandante Sousa Ferreira, tendo por base as palavras improvisadas no encontro de Barcelos.

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