Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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As batatas fritas

Mala da Partilha – Histórias de Vida

Conta o Leitor

2019-08-28 às 06h00

Escritor Escritor

Maria Romeo

Uma história muito diferente de tantas outras, aliás todas são diferentes, mesmo que umas mais ou menos parecidas, mas esta é puramente verídica., e inédita, se calhar.
Nasci em Moçambique, uma família simples, conservadora, composta por pai, mãe, eu e o meu irmão mais novo cerca de 4 anos e meio. O meu pai trabalhava numa fábrica e a mãe era doméstica, com o seu quintal, pequena horta e animais de capoeira. Andávamos na escola. Sempre fomos uma família unida e alegre. Viviamos num bairro, onde nos divertíamos com os amigos da nossa idade. Estávamos entre a década de 1960/70.
Aos domingos o almoço era sempre melhorado, de costume frango de churrasco (galinha à cafreal), batatas fritas e outros pequenos petiscos próprios de África. A minha mãe servia-nos o almoço e dava-nos já o prato feito com a dose e só ao domingo tínhamos direito à coca cola, a pequena garrafa que era dividida por nós dois. Não havia abundância, mas nunca passámos fome, e éramos felizes.
O meu irmão, mais novo que eu como atrás referi, adorava batatas fritas e depressa acabava as dele, enquanto que as minhas ainda permaneciam no meu prato. Ele as cobiçava, e eu não as dava, mas sim, as vendia. Por 5$00 (cinco escudos). Ele levantava-se da mesa sem protestar, ia ao seu quarto buscar as moedas dava-me e eu passava as minhas batatas para o prato dele. Ele todo contente lá as comia. Nunca niguem se zangou ou houve de algum modo algum protesto. Foi assim durante algum tempo, a bem dizer sempre que havia batatas fritas. Nunca se falou nisto, nem nessa época nem nos anos seguintes.
Hoje, passados quase 60 anos, sempre que nos reunimos com amigos da nossa infância, ou mesmo em casa, entre nós, relembramos deste episódio e o assunto, a cada vez que a ele nos referimos, aprofundamos cada vez mais, porque contamos aos nossos filhos e familiares mais chegados. O meu irmão diz que só nos dias de hoje faz uma avaliação, o quanto pagava tão caro as batatas, porque naquela época 5$00 era muito dinheiro, dado que a coca cola pequena custava a módica quantia de 1$50. E então, gera-se uma espécie “discussão”, cada qual com seu argumento: ele a dizer que eu era mázinha porque as vendia, eu a dizer que ele era guloso que ainda queria as minhas. A verdade é que ele poupava bem o dinheiro porque eu sabia que ele tinha os tais 5$00. Os nossos pais davam 1$50 diariamente para o transporte e eu ia a pé até à escola (bastante longe), durante a semana toda, para no fim de semana poder comprar um gelado. Ele não, ia a pé sim, mas juntava para comprar carrinhos e canetas, cuja colecção ainda possui.
É claro que quando contamos isto, queremos saber a opinião de quem nos ouve. Todos se riem, mas a maior parte tem pena do menino porque tinha de me pagar para comer mais batatas fritas (as minhas). E a mim, alguém me defende??
Começámos a trabalhar muito cedo, ele com 14 e eu com 17. Entregávamos os vencimentos em casa. E depois a nossa mãe pagava os passes dos transportes e dáva-nos um pequena quantia.
Quando saíamos, tinha de ser sempre os dois. E sempre vimos as estreias dos filmes todos, mas quando eu queria ver um determinado filme, ele já sabia que a nossa mãe só me deixava ir com ele, a chantagem aqui era inversa. E então ele dizia-me que se eu quisesse ir tinha de lhe pagar o bilhete (10$00) para me acompanhar. Neste campo nunca se falou, nem houve discussão. Eu era interessada, que remédio tinha….
Agora, ainda hoje se fala nas batatas fritas, até em tom de brincadeira lhe digo que eu não sabia que havia ficado tão traumatizado com isso, pois só se falou nisto há pouco tempo… ele responde sempre com a sua razão, que não está traumatizado, que era miúdo, não sabia o valor do dinheiro, mas que hoje fazendo contas (é reformado bancário) tem a noção da inflação com que pagava as tais batatas fritas…. Pagava porque podia, porque queria, sem protestar.
Importa frisar aqui que somos amigos e damo-nos muito bem, mas nas batatas fritas, diz ele que terei de fazê-las (tão boas como as da minha mãe) até ao fim da vida, sempre que vai almoçar a minha casa para compensar aquilo que ele pagou! Por vezes elas não saem tão a gosto dele, ou por defeito da batata ou do óleo e lá vem o protesto….
Rimos sempre muito desta historieta, principalmente quando há mais gente amiga à nossa volta, mas o meu argumento é sempre o mesmo, gosta de batatas fritas, quer mais, é guloso, tinha moedas e estaria até se calhar à espera que eu as vendesse?
Ainda não lhe disse, só quando lhe der a folha deste jornal para ele ler, deixarei esta pergunta no ar: “teria ele medo que eu recusasse a venda”?

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