Correio do Minho

Braga, sábado

As Bibliotecas e a catalogação na publicação

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Voz às Bibliotecas

2017-12-14 às 06h00

Rui A. Faria Viana

De entre as diversas atribuições de carácter técnico imputadas às bibliotecas com o fim de disponibilizar a informação e o conhecimento, destaco a catalogação, e, particularmente, as tarefas associadas a esta fase de tratamento técnico dirigidas fundamentalmente ao livro impresso. Nesta fase, a preocupação essencial é a descrição bibliográfica normalizada tendo em vista a constituição de um catálogo para consulta e recuperação do livro ou documento por parte dos leitores/utilizadores. Esta tarefa, no conjunto das que se realizam numa biblioteca, é essencial e demorada mas, a sua importância é tal, que dela depende o acesso ao livro. E isto, a propósito do que há muito tempo venho defendendo e que em Portugal é facultativo e, por isso, sem qualquer impacto e interesse mas, noutros países obrigatório e com consequências assinaláveis, designado por catalogação na publicação (cataloguing in publication).
A catalogação na publicação, também designada por catalogação na fonte ou catalogação pré-natal, é realizada antes da publicação do livro ou qualquer outro documento e quando estes se encontram ainda em fase de concepção de modo a permitir incluir, no verso da página de rosto, a impressão da descrição bibliográfica. Esta tarefa apresenta vantagens como: normalização no tratamento dos dados bibliográficos, padronização dos dados descritivos, simplificação do tratamento documental, actualização das bibliografias de cada país, melhoria na qualidade da catalogação, actualização mais rápida dos catálogos, racionalização dos recursos humanos das bibliotecas, melhor conhecimento do que é publicado no país, e familiarização dos leitores com os dados bibliográficos. Essencialmente, e quando aplicado de forma consistente, este sistema de catalogação proporciona às bibliotecas e aos leitores em geral, uma rápida disponibilização de informação normalizada sobre as obras publicadas. Para além disso, as bibliotecas escolares veriam o seu trabalho facilitado e poderiam ser as grandes beneficiárias da catalogação na publicação, pois, com a criação em 1996 da Rede de Bibliotecas Escolares, se não fosse o apoio das bibliotecas municipais não seria possível a criação de bibliotecas minimamente organizadas e tratadas por falta de pessoal técnico e técnico superior devidamente qualificado para realizar as tarefas de descrição bibliográfica nas escolas.
Em Portugal, também existe este serviço de catalogação prévia desde 1990, resultante de uma colaboração entre a Biblioteca Nacional, que centraliza o serviço, com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e com alguns editores, designado por CIP (Cataloguing In Publication) sendo, no entanto, um programa de adesão voluntária e por protocolo, o que o torna ineficaz e sem qualquer interesse por não ser obrigatório, apesar de gratuito. Também, as restrições (edições de autor, manuais do ensino superior, banda desenhada, literatura infantil e juvenil, etc) e os documentos excluídos (publicações em série, separatas, manuais de ensino, obras de carácter religioso, material audiovisual e software, etc) deste sistema de catalogação são tantos que acabam por colocar em causa a concretização dos objectivos para que foi criado.
Tratando-se igualmente de um serviço concentrado na Biblioteca Nacional, penso que muito haveria a lucrar se fosse descentralizado, atribuindo competências a muitas bibliotecas municipais por zonas de influência geográfica, assim como, se a sua obrigatoriedade se tornasse efectiva para cumprimento dos objectivos associados a este serviço.

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