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As Bisavós e a Gripe Espanhola

Viagem a Viena

As Bisavós e a Gripe Espanhola

Voz aos Escritores

2020-04-03 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Chamava-se Aurora, tinha vinte e quatro anos. Chamava-se Rosa, tinha vinte e dois anos. A Gripe Espanhola ceifou-as na Primavera da vida no ano da graça de 1918, ano em que a desgraça assolou a Terra. Eram minhas bisavós. Rosa deixou um filho de quatro anos, o meu querido avô José Páris. Aurora deixou dois filhos, o Zacarias de dois anos e a Marizete, minha doce avó, uma menina de olhos de mel tão cedo privada do colo e do cálido seio materno. Quando partiu, Aurora levou no ventre o terceiro filho, um nascituro que não viu a luz do Mundo. Aurora partiu e deixou dor e saudade. Aurora foi por muitos chorada. Era um ser alado, de mãos abertas, mãos distribuidoras de cuidados, carícias e alimentos aos desafortunados. Era voluntária no Hospital de São Marcos, onde foi contagiada pela Gripe Espanhola, uma epidemia que de espanhola somente tinha o matraquear dos dentes dos enfermos à semelhança das castanholas sevilhanas. Dizem que o nome da pandemia lhe foi atribuído porque de Espanha, país neutro na Grande Guerra, chegavam notícias verídicas e não censuradas, notícias que relatavam a devastação mortífera da epidemia, ou porque os primeiros infectados foram uns trabalhadores vindos de Badajoz e Olivença.

Ambos os jovens viúvos, o meu bisavô Manuel Páris e o meu bisavô António Peixoto, mais conhecido por Pachancho, casaram com as respectivas cunhadas, irmãs mais novas das falecidas. As tias tomaram o lugar das defuntas na criação dos sobrinhos órfãos de mãe. Outra das minhas bisavós, de nome Ana, escapou ao flagelo da Gripe Espanhola que dizimou milhões em todo o Mundo. Ana, menina de boas famílias vinhateiras do Douro, perdeu-se de amores pelo meu bisavô João Rito, maquinista das locomotivas a vapor, bracarense que percorria a linha do Douro. Foi um amor contrariado pelos pais da rapariga destemida que fugiu do lar para com o maquinista casar. Ficaram a viver em Braga, na Estação de Caminhos de Ferro. Geraram uma vasta prole. Aquando do falecimento dos pais Ana recusou a herança, mesmo vivendo remediada, alegando não ter direito ao quinhão por os pais a terem renegado em vida sem comiseração. Ana era um ser místico, uma adivinha que auxiliava os carentes de aconchego do corpo e da alma, a quem ofertava mezinhas e panaceias saídas das suas mãos curandeiras, Ana a sibila por muitos venerada, Ana pelo marido idolatrada. Durante a pandemia não teve mãos a medir, sempre pronta a acudir aflitos e desvalidos.

No ano de 1918 Braga vestiu-se de luto. A Morte enrodilhava a cidade numa toalha de mesa pardacenta, empanturrava-se de vidas num festim pantagruélico, a voracidade da Morte numa insaciável tormenta. A Morte farejava a carne tenra, preferia os mais jovens, crianças, rapazes, raparigas, cinco, dez, vinte, trinta anos de vida. A Morte tinha fiéis aliados, parceiros da comezaina, a fome, a má nutrição, a ausência de salubridade, a inexistência de medicamentos, a carência de profissionais de saúde que valessem às resmas de enfermos que a cada dia tombavam arroxeados, pulmões alagados, tiritantes de frio e pavor, olhos escancarados, incrédulos dos imerecidos fados.
Durante o dia, pelas artérias da urbe minhota, incessantes desfiles fúnebres acompanhavam os esquifes rumo ao cemitério de Monte D´Arcos.
Durante a noite, pelas artérias da urbe minhota, procissões à imagem dos autos-de-fé seguiam num compassar arrastado, lamurioso, desesperado, círios, cruzes, rosários em dedos estrangulados, oravam pelos vivos, oravam pelos mortos, oravam pelos acamados.
À medida que a epidemia se alastrava, fecharam-se escolas, proibiram-se feiras e romarias, ordenou-se o confinamento como nas leprosarias. Obstaram-se as visitas ao Hospital de São Marcos atulhado de enfermos e moribundos. A cidade cheirava a resina de pinheiro e a eucalipto, queimados para purificar o ar. A cidade cheirava a morte, a medo, a azar.

Não havia comércio porque os comerciantes adoeceram: não havia serviços públicos porque os funcionários adoeceram; não havia caixões porque os defunteiros adoeceram; escasseavam os coveiros que também adoeciam e morriam. Os varredores das ruas trocaram as vassouras pelas pás e cavaram a terra do cemitério, covas onde arremessavam centenas de cadáveres, corpos pela morte e pela lama tragados, corpos em lençóis amortalhados pela calada da noite nas portas das igrejas e instituições abandonados.
Não havia mãos nem alento para enterrar tantos mortos. Procedeu-se à incineração dos corpos, também como profilaxia da pandemia.

O meu bisavô Pachancho, arrasado pela morte da mulher, não quis que Aurora fosse cremada. Um anjo de asas chamuscadas não pode voar e o Céu alcançar. Escondidos, ajudado por amigos, inumaram-na no cemitério de Monte D´Arcos onde, até ao fim dos seus dias, António a visitou, levando-lhe uma flor regada pelas lágrimas do seu eterno amor.

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