Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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As cartas de Miro

Costa e os ratos

Conta o Leitor

2019-08-05 às 06h00

Escritor Escritor

Ana Teresa Cruz

Às vezes queria enviar-te uma carta daquelas nossas e dizer-te como a vida é tão monótona aqui na nossa terra. Desde que me levanto até me deitar, a única coisa que muda são os meus suspiros, que a cada dia se repetem com mais intensidade e frequência.

— “Miro, quem suspira fica perto da morte!”, dizias-me tu.
E tinhas razão, amor. Sinto-me perto dela, cada vez mais, como se o meu peito se estivesse a descolar do meu próprio corpo.
Hoje tentei calçar as meias sozinho, mas lá veio a Susana com o seu sorriso tentar ajudar-me. Mal sabe ela o que é a felicidade, e eu pareço esquecer-me também. Agradeço-lhe e tento guardar aquele meu mau feitio que dizias que me ia fazer ficar sozinho. Estou sozinho agora, velhota, e já nada me vale. Estás aí? Com certeza dormes melhor na tua nuvem do que neste colchão de molas onde me sento e falo para o teu guarda-roupa a pensar que me ouves.
Relembro como decorava todos os teus traços. Achavas que, no “defeito” de eu ser homem, não ligava à aparência, mas não sabias o quanto eu reparava na tua, o quanto eu percorria o olhar pelos teus olhos e nadava neles como quem num barco navega sem destino.
Tantas vezes dobrei mal as camisas, tantas vezes deixava as cruzetas fora do sítio, tantas vezes desabafavas com as paredes:

— “Ai Miro, homem, se não fosse o amor que te tenho, não me tinha casado contigo”.
Agora sou eu quem desabafa sozinho e vejo que até o amor, que outrora me salvara, me foge pelos dedos e se desliga de mim. Já não existe um “nós”. As paredes sentem a falta da tua voz. E eu também. 
 Pego numa camisa, a mesma de sempre, e tento dobrar como tu me ensinaste, mas não consigo. Embrulho-a de qualquer forma e atiro-a para a gaveta. Que interessa isso agora? Tu já cá não estás, amor. E eu tenho tantas saudades tuas.
Isto não é nada sem ti.
Isto nem “isto” é.
Isto é simplesmente sobreviver, é o afundar de um barco.

Sabes? Às vezes preferia ter aquela doença da vizinha, aquela da memória, para me poder esquecer de ti, do bem que me fizeste e do mal que me fazes agora, ao deixares-me preso a estas lembranças. Ah, raios partam os “Pai Nosso” que me obrigavas a rezar e todas aquelas orações antes de dormir. Ele levou-te, esqueceu-se aqui em baixo de mim e apenas me deixou a chuva que cai, pesada, nos meus sapatos.
Vou parar... Estou cansado da vista, e do coração. Vê lá se aí em cima alguém te entrega a correspondência. Já são muitas as cartas que te escrevi e sem nenhuma resposta até agora. 
Deitar-me-ei agora, neste reles colchão de molas, na certeza de que um dia me deitarei ao teu lado na nuvem que te cobre e te guarda por mim, e o desconforto já não terá lugar. Está tanto frio... e hoje, hoje tu não me aqueces os pés.
Espero que seja esta noite, querida, espero que seja esta noite que te vou encontrar na nossa nuvem. 
E suspiro... (mais uma vez)...

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