Correio do Minho

Braga, segunda-feira

As circunstâncias de um tempo novo

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Ideias Políticas

2015-03-03 às 06h00

Carlos Almeida

“Começou um tempo novo para Braga”. Assim profetizava Ricardo Rio logo após a sua eleição para o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Braga. Prometia então uma ruptura profunda com as políticas do passado: com as opções de gestão e com a postura autista e arrogante.
No entanto, esse “tempo novo” trouxe mais mudanças quanto à forma de governar do que propriamente ao conteúdo. E é precisamente através dessa nova forma de governar que, reconheça-se, a maioria liderada por Ricardo Rio tem conseguido passar a mensagem (errada) de que agora tudo é diferente em Braga. Diferente e melhor, propagam.

Diariamente somos bombardeados com anúncios, notícias, comunicados. Na imprensa, as referências positivas à política local parecem enxurrar os dias negros do passado. Ricardo Rio revela-se omnipresente. Nas redes sociais agradece-se os “bons dias” do Presidente. Tudo parece acessível, todos se mostram abertos e disponíveis.
Tempos modernos - dizem uns. Ventos de mudança - vaticinam outros.

Vendedores de banha da cobra, digo eu. Fazem-nos crer que têm as soluções para todos os males de que padecemos, que apresentam respostas para todos os problemas, mesmo aqueles que não são de sua competência. Vendem o paraíso na terra mais católica de Portugal. Todas as pequenas coisas são motivo de orgulho, festa, celebração. Cimeiras, embaixadores, feiras, festas e romarias. Empresas e empreendedores, startups, cidade inteligente, tecnologia e inovação. Tudo tem a sua espectacularidade.

Guy Debord, autor de “A sociedade do espectáculo”, descreve bem este tipo de fenómeno: [o espectáculo] “nada mais diz senão que «o que aparece é bom, o que é bom aparece» e que ele “é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.”

Nada mais oportuno para classificar o exercício de funções por aqueles que hoje governam o município. Tal como o a obra de Debord anuncia, também nós vivemos hoje sob a forma de dominação pelo espectáculo. Dessa forma superficial se revela o poder municipal, ao ignorar os problemas que realmente importam, recusando discutir com profundidade os assuntos. É assim que, de forma leviana, responde a quem procura tratar com seriedade e preocupação os problemas dos cidadãos.

Confrontado pelo PCP, na última sessão da Assembleia Municipal, com o facto de ter apresentado um plano estratégico para Braga que se orgulha dos baixos salários praticados na região, Ricardo Rio, Presidente da Câmara Municipal, não arranjou melhor resposta do que a alusão a um Sr. António Pereira, o “Wally” da “Liga dos Últimos”. Perante um auditório perplexo com o singular espectáculo, eis que Ricardo Rio, empunhando o seu iPhone do alto da tribuna, cita o supostamente famoso personagem da programação televisiva nacional: “na Rússia é que era bom, ganhava-se 5 mil contos por mês”.

Quem poderia lembrar-se de tal coisa? Só mesmo alguém com uma memória muito fresca, associada a uma tremenda perspicácia e excelente sentido de oportunidade. Brilhante. Incomparável. Arrebatador, este novo estilo de governar.

Confrontado pelo PCP com a incompatibilidade verificada entre a promessa de uma “cidade feliz” (qual terra prometida!) e o facto de, no plano estratégico, os “baixos salários se apresentarem como um factor de atração e de investimento”, Ricardo Rio lembra-se de responder através de uma paródia da “Liga dos Últimos”!

Devo, no entanto, assumir, pedindo que me perdoem pela ignorância, que não conhecia a dita paródia. Curioso que fiquei, não perdi tempo e fui pesquisar. Sinceramente, não consegui entender por que raio é que alguém gravaria aquele episódio na memória. A única explicação que me ocorre é a de alguém que queria muito enriquecer o seu acervo pessoal de respostas para quando falhassem os argumentos. Imagino que na mesma pasta estejam as referências aos penteados possíveis no regime Norte Coreano ou às tão badaladas casas de férias da Sibéria.

Deixando de lado a parte lúdica, hilariante até, desde tipo de postura, a verdade é que com argumentos deste calibre cai por terra qualquer oportunidade de debate sério.
Fiquem-se então pelo espectáculo, que o povo saberá, no momento certo, avaliar se valeu mesmo a pena comprar este bilhete para o prometido tempo novo.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.