Correio do Minho

Braga,

- +

As eleições americanas

Ir atrás dos sonhos

As eleições americanas

Ideias

2020-11-13 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Quando estudei Ciência Política, nos Estados Unidos, acreditava-se com Theodore Lowi que “Political Science is a product of American State”. Entendia-se que só numa sociedade homogénea em que os eleitores reagem a determinadas variáveis, era possível estabelecer regularidades e leis. O método de investigação em Ciência Política devia assemelhar-se ao das ciências maturais. Foi neste contexto que se desenvolveram as sondagens, os estudos de opinião e o marketing eleitoral.
Na Europa, a construção da Ciência Política constituía uma tarefa quase impossível, porquanto a opinião pública é polarizada, existem clivagens e são normais as identificações partidárias que não existiam nos Estados Unidos. O sistema político tem dois partidos que ocupam o centro político, pelo que os eleitores se movem por motivos racionais.
Estas eleições, como as anteriores, desconstruíram este modelo. A América está dividida a meio; e existem clivagens ao longo de vários temas (racismo, imigração, porte de armas, papel da América no mundo, etc.) e, por isso, as sondagens não conseguiram prever com rigor os resultados eleitorais, não apenas porque os resultados eleitorais não dependem apenas dos votos individuais, mas também da concertação entre os estados.
Todavia, estas clivagens entre as duas américas sempre existiram, sendo que o populismo é um movimento político e social que nasceu nos finais do sec. XlX, com raízes em Andrew Jackson, em que se contrapõe o homem comum aos interesses económicos e financeiros da costa leste; e que, como acentua Acemoglou, se acentuou com a globalização e desindustrialização.
Trump e os seus mentores perceberam este fenómeno e conseguiram agrupar em um mesmo ticket os estados agrícolas do centro, os estados sulistas (lembro-me bem que nos estados do Sul, juntamente coma bandeira do estado e a dos Estados Unidos, flutuava, ao lado, o estandarte da Confederação, apesar de derrotados na guerra civil), os conservadores do tea party e os evangélicos. É um cocktail explosivo que Trump conseguiu manipular através das redes sociais.
E não será pelo fato de Trump ter perdido as eleições que o Trumpismo vai desaparecer. As condições que possibilitaram o aparecimento deste monstro continuam a existir e, provavelmente aparecerá outro, provavelmente mais polido, não menos perigoso.
Há quem afirme que Trump não perderia as eleições se não fosse o Covid. Não estou tão certo disso. É verdade que a economia americana, de há um ano, estava em alta, mas Trump distribuiu milhões de dólares. Além disso, não existe nos USA Serviço Nacional de Saúde e o seguro de saúde está geralmente ligado à relação individual de trabalho. Sem trabalho, não há dinheiro, como não há forma de fazer face aos riscos do Covid. E,é por isso que parte substancial dos americanos apoiou a política de Trump do não confinamento.
Vivemos momentos difíceis, mas empolgantes no que respeita aos fenómenos políticos. O mundo, conforme o conhecemos, vai mudar e ver-se-á confrontado ou com um Estado Leviatã, ou com um populismo cavernícola.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho