Correio do Minho

Braga, terça-feira

As grandes paixões não chegam ao altar

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2014-07-08 às 06h00

Escritor

António Ribeiro

Agora que se afigurava nova possibilidade de um reencontro, não conseguia suster esse misto de impaciência e receio. Nos últimos tempos ambicionara o momento que se anunciava e, não obstante, sentia cada vez mais um obscuro temor, uma estranha vontade de procurar desculpa razoável que permitisse adiar aquilo que, conscientemente, pressentia inevitável.

Acordara cedo e mal disposto, o que não sendo novidade digna de especial menção, atribuíra à irritante impaciência em que mergulhara desde que fora acertado o encontro. Via passar o tempo e não conseguia tomar uma resolução segura, preso à habitual indecisão, que apenas de si era reconhecida, mas que os amigos, benevolentemente, atribuíam a um racionalismo algo exagerado, sendo cada opção o resultado de longas e meticulosas ponderações.

Quando mais precisava de manter em conveniente exílio os sentimentalismos e as ambivalentes recordações do passado, não conseguia remover essa agridoce reminiscência das primeiras experiências. Sentia o despertar dos sons que povoavam o imaginário de um tempo mais conveniente para brincadeiras infantis, jamais para ser vivido com paixões arrebatadoras, entrando e saindo em permanente jogo de cabra cega nos reencontros da vida.

Ao tempo, era pouco mais que um menino. Seis? Sete anos? Não há certezas. Porém, sabe-se que ganhavam velocidade os anos 60 do século passado e, mesmo nesta Europa periférica, numa comunidade rural pouco dada a amores, quanto mais extemporâneos!, a paixão nascera e ganhara raízes capazes de enfrentar qualquer interdito.
«Só pensa nela
A toda a hora
Sonha com ela
P´la noite fora
Chora por ela
Se ela não vem»

Ela começara por ser alguém de quem se falava, atribuindo-se-lhe virtudes que talvez não exibisse, nem pecados que necessitassem de expiação. Nesse tempo seria já uma senhora, embora, dizia-se, mantivesse uma aura juvenil que a todos seduzia. Imaginava-a próxima e procurava inscrevê-la numa das figuras femininas que eram familiares. E, contudo, nenhuma dessas representações aderia ao modelo imaginado.

Um dia aconteceu o tão sonhado encontro. Arrebatador. Magnético. Indescritível. Mesmo hoje, quase meio século transcorrido, mantêm-se bem vivos esses primeiros dias de absoluta fascinação. Que, mau grado todas as novas experiências que a vida foi selando e das relações que procurava cimentar, mas que acabavam por ceder a esse primeiro amor, mantém ainda a imaculabilidade de paixão virginal.

Construía todas as desculpas para ficar ao seu lado, completamente afastado desse pequeno círculo em que crescera, memorizando cada pormenor da sua imagem e que, à noite, no escuro do quarto, imaginava alcançar.

Porém, acima de tudo, era a voz. Única. Plurifacetada. Multidimensional. Eram aqueles sons, a um tempo doces e femininos, noutros momentos, graves e mesmo algo intimidantes, que o prendiam em absoluto êxtase. Era escutada em religioso silêncio, esconjurando quem, ainda que involuntariamente, penetrava nesse tabernáculo sonoro e introduzia um qualquer ruído perturbador desses tempos de comunhão.

Amores, maturos na intensidade, vividos em tempos infantis. Platónicos, na categorização adulta. Somente ouvidos; experimentados em solitário, num lugar que guardasse o segredo da desmesurada paixão, afastados de olhares que, nesse tempo, jamais compreenderiam tamanho arrebatamento nos primeiros alvores de uma vida. Cascatas de volúpia, hoje assim catalogadas, ainda que, compreensivelmente, anacrónicas à época.

A sucessão dos dias jamais alterou esse amor em crescente processo de absoluta dependência.
Não separe o homem o que o destino uniu!
Viviam-se os anos da revolução.
«Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.»

Apesar das novas solicitações, ela manteve a distinção. A chegada de novas figuras que lhe disputavam a proeminência, embora tivesse esmorecido um pouco a relação, não foi capaz de provocar um corte definitivo. Inocentes infidelidades muito aquém do adultério.

Um dia, já no refluxo da maré revolucionária e quando nada o permitia adivinhar, por absoluto acaso, sem se fazer anunciar, aconteceu o primeiro momento de consumação desse já longo tempo de enamoramento. Num espaço em claro desajuste para que ocorresse o que em muitas horas e dias fora sonhado. Mas aconteceu. E publicamente presenciado! Porém, sem qualquer sinal de clara censura, antes desculpado à conta dos ardores juvenis. Durou apenas uma tarde. Mais breve que amores de Verão…

Vão longos os anos. A vida adulta. Certa e alinhada. Em minguada condescendência para amores a destempo. Contudo, quando menos se anunciava, numa época em que a memória era mais reconstrutora de vivências passadas que fiel guardiã de experiências vividas, tudo se alteraria. Em definitivo, chegou-se a afirmar.

Os anos 80 eram o tempo de todas as experiências, de novas loucuras, de projetos de liberdade em transgressão legal. Na televisão celebrava-se o paradoxo da morte da Fénix que, de novo, seria renascida.
«Video killed the radio star.
In my mind and in my car, we can't rewind we've gone too far»

Das cinzas de uma paixão nunca apagada, reacendeu-se de novo esse desejo louco de reatar a ligação perdida, desalinhar de uma vida segura e previsível. Consumar o que apenas fora iniciado, penetrar no que somente fora entreaberto.

Aconteceram dias, meses, anos de absoluta fascinação. Manhãs vividas com a energia própria de quem não olha em volta, fixo apenas num ponto que elegeu como ideal a alcançar. Tardes plenas de satisfação pelo gozo de novas descobertas que se iam concretizando. As noites e as madrugadas representavam o apogeu da experiência.

Atingia-se o pináculo da satisfação quando na cumplicidade dos silêncios noturnos conhecia o que sempre fantasiara. E, contudo, havia ruídos que ofendiam a paz dos dias.
«I was feeling insecure
You might not love me anymore
I was shivering inside
I was shivering inside»
Ninguém é feliz. Está-se feliz!

Sentia-se bem próxima a certeza de nova rotura. Dolorosa porque deliberadamente definitiva. No propósito. Apenas. Quando a raiva amainava, acendia-se um outro vaga-lume de esperança numa muito improvável reconciliação. Que nunca aconteceu, salvo uma outra breve troca de olhares. Sem merecimento de especial menção. Pequenos encontros, mais ou menos furtivos, na curta duração de uma necessidade satisfeita, quais amantes invisíveis em motéis hertzianos…

Hoje, na iminência do reencontro, assisto, mais uma vez, ao lento desfilar de imagens amarelecidas pelo tempo, escutando sons em desalinho de uma banda sonora gravada no vinil da vida, repetindo espiras riscadas pelas frequentes repetições.
«Angie, I still love you, remember all those nights we cried?
All the dreams we held so close seemed to all go up in smoke»

Hoje, na iminência do reencontro, sinto não ter já vontade de retomar o que nunca acabou.
Hoje, na iminência do reencontro, mais uma vez voltarei costas ao futuro.
Alinho a primeira música, penso na frase de abertura, abro o microfone. Procuro as palavras, mas apenas encontro o silêncio. Fico mudo ao sentir-me de novo abraçado com a mesma voluptuosidade dos primeiros encontros, procurando a redescoberta da fiel companheira de todas as horas.
«The time is gone the song is over, thought I'd something more to say»
Eu e a rádio: as grandes paixões não chegam ao altar!

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