Correio do Minho

Braga, segunda-feira

As hortas urbanas e as estufas de varanda ou de terraço…

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Escreve quem sabe

2017-11-15 às 06h00

José Hermínio Machado

Na década de oitenta do século passado, quando o então Grupo Folclórico de Professores, em que me integrava, pensou numa publicação de divulgação e estudo das problemáticas ligadas às tradições, a identidade da revista concebida esteve quase, quase, para se expressar pelo prefixo RE, assim e só assim, sem mais, um prefixo básico para a criação das palavras necessárias: reunião, recriação, retoma, reprodução, reciclagem, reparação, renovação, etc, etc.

O nome da publicação acabou por ser «AGUA MOLE» e teve uma edição de quatro números, quantidade parca e efémera para tanta vontade, mas suficiente para ilustrar algumas potencialidades e ansiedades temáticas. Já então os responsáveis pela edição consideravam que o estudo das tradições ora se perspectivava como repetição, ora se perspectivava como recriação ou renovação, virando-se ora para uma retoma de quadros configuradores de práticas sociais do passado, ora para uma apreensão de novos quadros de vida social carentes de uma recriação cultural.

Não se inventava nada que não andasse no ar desde há muito mais tempo que o suposto, praticamente desde o princípio do seculo XIX quando as transformações tecnológicas começaram a galopar a onda do progresso e do desenvolvimento, praticamente desde que William John Thoms em 1846 inventara a palavra folclore e desde que, neste mesmo ano de 1846 o nosso Almeida Garrett fizera, em Da Poesia Popular em Portugal, o seguinte apelo: «O que é preciso é estudar as nossas primitivas e genuínas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas, as costumeiras e as superstições antigas: lê-las no mau latim moçárabe meio suevo ou meio godo, dos documentos obsoletos, no mau português dos forais, das leis antigas, e no castelhano do mesmo tempo - que até o século XV, a literatura das Espanhas era toda uma. - O tom e o espírito verdadeiro português, esse é forçoso estudá-lo no grande livro nacional, que é o povo e as suas tradições, e as suas virtudes, e os seus vícios, e as suas crenças, e os seus erros. - E por tudo isso é que a poesia nacional há-de ressuscitar verdadeira e legítima, despido, no contacto clássico, o sudário da barbaridade, em que foi amortalhada quando morreu, e com que se vestia quando era viva.

Reunir e restaurar, com este intuito, as canções populares, xácaras, romances ou rimances, solaus, ou como lhes queiram chamar, é um dos primeiros trabalhos, que precisamos.» A ideia expressa no título desta crónica é óbvia: as hortas urbanas, quer se situem no centro, quer na periferia da cidade, vieram para ficar e são a prova documentada de que os valores que as tradições agrícolas contêm podem ser reciclados em novos contextos de vida social e manterem a sua eficácia na economia informal.

No seguimento delas, estão as sugestões de aproveitamento de varandas, terraços, jardins, cantos e recantos das habitações, para cultivo das mais variadas espécies. São da mesma ordem as recuperações de artes e ofícios tradicionais, como a tecelagem e a produção alimentar nas suas mais variadas manifestações. São da mesma ordem, os aparecimentos sucessivos de grupos de intervenção musical inspirados nas cantigas de tradição popular e oral, cada vez mais elaborados uns, cada vez mais rentes às condições de recolha outros. Não fora sentir-se esta força genesíaca de retoma de valores nas complexidades que o tempo presente precisa cada vez mais de digerir para compreensão e decisão de caminhos.

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