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As intrigas de Saraiva e a ética de Passos

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Ideias

2016-09-19 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Em 2011, ninguém imaginava que a imagem cândida e a voz ponderada de Pedro Passos Coelho ocultassem dos portugueses um projeto político que incluía a concretização do exato contrário do que estava a prometer. Os anos em que liderou o governo de Portugal mostraram-nos que essa capacidade de prometer uma coisa e fazer o seu contrário era um dos trunfos políticos que garantiam (e continuam a garantir) a sua sobrevivência no aparelho do PSD.

Percebemos também que muitos dos princípios que dissera defender no que respeita à liberdade individual e à igualdade entre todos não passavam de artifícios para granjear simpatia no voto urbano. Depois das eleições, Passos mandou os princípios às favas e entregou a alma aos caciques.
Na última semana, o modus operandi de Passos Coelho ficou ainda mais claro quando se soube que o ex-primeiro ministro se prestou para apresentar um livro de António José Saraiva sobre a vida privada de várias figuras públicas, algumas ainda vivas e outras já falecidas. Não está em causa a liberdade de expressão de Saraiva nem o direito de Passos Coelho retribuir a simpatia sistemática do semanário Sol com os interesses políticos do PSD. Um e outro podem, dentro dos limites da Lei, escrever o que entenderem e trocar os favores políticos que quiserem.

O que choca é que Passos Coelho, ex-primeiro ministro e líder do maior partido da oposição, se preste a um frete destes de forma voluntária e consciente mesmo após os repetidos alertas que recebeu de personalidades de todos os quadrantes políticos. Fica a impressão de que o pensamento estratégico dos conselheiros que tem no partido não consegue afastar-se da aritmética mais básica: este frete que o PSD, através de Passos Coelho, presta ao Sol, na pessoa de António José Saraiva, trará os seus dividendos políticos na ajuda que o Sol vai continuar a dar ao PSD.

Ao aceitar navegar nas águas da intriga, do boato e da maledicência, Passos Coelho traz para o centro da política portuguesa um estilo eticamente repugnante. No seu mal disfarçado marialvismo, Passos Coelho está a comunicar-nos que acha que tem autoridade moral para promover debates sobre a vida privada dos outros.

O público que consome avidamente o Correio da Manhã (de que o PSD tanto gosta) até pode aderir a este estilo de intriga, de boato e de maledicência para satisfazer a sua natural curiosidade. Mas os dividendos em matéria de credibilidade política hão-de constar da fatura que os portugueses sérios e decentes vão cobrar a Passos Coelho pela sua atuação. Convém lembrar, que este político que acha, consciente e voluntariamente, que a vida pessoal e sexual dos adversários políticos é coisa pública é o mesmo Passos Coelho que se indignou com a divulgação de notícias sobre a falta de pagamento das suas contribuições públicas obrigatórias.

Todas as pessoas têm segredos. E quem nega ter segredos, mente. Imagine agora o caro leitor que os seus segredos mais íntimos estavam no livro que o ex-primeiro ministro anda a promover. É esta a ética que quer para o seu país?

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