Correio do Minho

Braga, segunda-feira

As Maias ou os Maios - em defesa da biodiversidade

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Ideias

2019-04-24 às 06h00

Hilário de Sousa

O mês de maio está à porta e, em diferentes regiões do país, particularmente no Minho, ainda se mantém a tradição de apresentar, na noite de 30 de abril para 1 de maio, porventura da forma mais clássica do que noutras províncias, diversos motivos florais “nas janelas, nas frestas ou aldrabas das portas, nos currais, em cancelas, nos próprios animais, nas lojas de artífices, e em camionetes, locomotivas, passagens de nível, barcos e traineiras, ostentando rapazes e raparigas, com as orelhas floridas, os seus melhores trajos”.
(Ernesto Veiga de Oliveira, in "Comércio do Porto", de 13 de maio e 24 de junho de 1958).
Salvaguardando as diferenças significativas em termos histórico-sociais entre o final da década de sessenta do século passado e a atuali- dade, é um pouco desse ambiente florido que vai observar-se dentro de dias, bem mais evidenciado nos meios rurais. Este é no entanto um ritual que tem vindo a perder fôlego, um sinal de alheamento da nossa memória coletiva que não se dissocia do desconhecimento do simbolismo das “Maias” (ou “Maios”) e de uma mentalidade pretensamente progressista, sem tempo para pensar e a quem esse colorido não diz com certeza (quase) nada.
E é essa ausência de representações simbólicas que leva à perda de entendimento de si mesmo e do outro nas diversas experiências sociais, sabendo-se que elas fazem parte do itinerário de evolução e desenvolvimento histórico do Homem. A atribuição de significados a seres inanimados, ritos de passagem, ocorrências e fenómenos naturais, seres fantásticos e míticos, ocorre desde os primórdios da raça humana. São essas referências que devem reavivar-se persistentemente, sendo este o principal objetivo desta crónica, atualizando-as de acordo com as problemáticas que afligem os nossos dias.
Um olhar histórico pontualíssimo de modo a contextualizar as “Maias”, enquanto antiga festa popular dos primeiros dias do mês de maio, em homenagem à primavera e à renovação da natureza, mostra-nos que os celtas consideravam as árvores como possuídas de força divina, que as fazia crescer, sendo a floresta um local sagrado e de meditação. A Igreja Católica, por seu lado, diz-nos que é uma forma de lembrar a evasão de Jesus para o Egito, juntando a isso uma lenda segundo a qual foram colocadas giestas à porta dos locais onde se escondia, para que os soldados de Herodes o pudessem matar – quando estes lá chegaram, depararam-se com giestas em todas as portas...
À parte destas duas breves notas, as festas da primavera eram comuns em toda a Europa, misturando-se paganismo com cristianismo, elegendo-se para tal o mês de maio por ser o mais vigoroso na afirmação do ciclo vegetativo. Mas foi dada a esta celebração um novo sentido pela Igreja, uma dissimulação como forma de iludir um ritual pagão disfarçando-o com traços cristãos, ao chamar ao maio o mês de Maria, festejado com cânticos e orações. Na década de vinte do século passado, por exemplo, ainda era costume no Alto Minho rezar-se a “Missa das Flores” e noutros pontos do país havia procissões com ladainhas, pedindo um ano de boas colheitas, sem perigos ou doenças para as pessoas e animais.
O enfeitar com giestas e outras flores naturais as janelas, varandas e portas simboliza portanto um poder sobrenatural ou da Natureza em proteger as pessoas, animais e bens na passagem do último dia de abril para o 1.º de maio. Estes rituais estavam ligados ao rito da fertilidade para com o novo ciclo da Natureza, à celebração da primavera ou ao início de um novo ano agrícola. Nos variados aspetos desta interação, por vezes tão distinta, ter-se-ia pois operado um sincretismo de práticas e crenças de origens diferentes, mas todas convergentes, recobrindo a obscura ideia, que subsiste no espírito do Homem, da necessidade de desencadear formas efetivas de proteção e de esconjuro a opor à insegurança da vida e à ameaça do mal.
Hoje, exorcizadas estas dimensões do humano e ao falar-se em preservação, seja das tradições ou da Natureza, importa que não se olhem para os rituais sem os questionar, dada a relevância de os conhecer para os reinventar, refletindo no caso sobre o florido das “Maias” como um alerta para a necessidade de promover um uso mais eficiente da terra, da água e da energia, de modo a alcançar os objetivos constantes do Plano Estratégico para a Biodiversidade e as suas Metas até 2020. Infelizmente, os resultados até à data demonstram que há caminhos plausíveis para a perda da biodiversidade e de que não sejam alcançados os objetivos mundiais relativos ao combate às alterações climáticas, degradação da terra e desenvolvimento sustentável. Muito preocupante!

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