Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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As máscaras de carnaval

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Ideias

2014-03-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Assinala-se amanhã mais um dia de Carnaval que, com ou sem a tolerância dada a muitos trabalhadores, continua a movimentar algumas localidades portuguesas, trazendo uma oportunidade cada vez mais difícil para equilibrar as economias locais e aliviar, por momentos, a tristeza que se incorporou no rosto das pessoas.

Não querendo, no entanto, enveredar por essa análise à sociedade actual, irei recordar apenas alguns aspectos que se prendem com as tradições de Carnaval no nosso país e em Braga.
Como sabemos, o Carnaval é uma época de festejos, que começa no dia seguinte ao “Dia de Reis” e termina na véspera da “Quarta-feira de cinzas”, concentrando-se especialmente nos três dias (domingo, segunda e terça-feira de Carnaval).

O longo período de jejum que antecede a Quaresma, associado às privações de carne, incentivou a realização de várias festas antes da “ Quarta-Feira de cinzas”. Estas festas ficaram marcadas pelo consumo abundante de carnes, muito características desta época do ano, onde o frio se faz sentir com mais intensidade. Surge, desta forma, o termo 'Carnaval' derivado dos vocábulos latinos “carnis”, que significa carne, e de 'valles', que significa prazeres.

No nosso país o Carnaval foi, durante várias décadas do século XIX, marcado por atitudes e actos pouco civilizados, até brutais, uma vez que eram usados folguedos agressivos e ofensivos. Era frequente atirarem ovos, água, farinha, laranjas, tangerinas, areia ou cera às pessoas que, desprevenidas, passavam pelas ruas.

A tradição típica do século XIX englobava ainda o hábito de se atirarem “à rua, ou de janela para janela, púcaros e tachos de barro e alguidares já em desuso, como depois se fez também no último dia do ano, no intuito de acabar com tudo velho que haja em casa” (1).

Em Lazarim (Lamego) ocorriam episódios ainda mais assustadores, onde as máscaras de madeira, revestidas a pele de coelho, cobras e sardões eram apresentadas e atiradas à população!
O modo como decorria o Carnaval em Portugal era sempre violento, vulgar, desordeiro e desorganizado. Nestas festividades, que duravam três dias, a população portuguesa era apresentada de forma “violenta e perversa. Os homens do povo vestiam-se de mulheres e diziam obscenidades.” (2).

Ficou célebre o Carnaval de 1868, realizado em Lisboa, quando foi necessária a intervenção da Guarda Municipal de Lisboa para tentar colocar ordem nos violentos desacatos que ocorreram durante a festa do Entrudo. Contudo, devido à violência aí gerada, a referida força policial teve que se refugiar no Quartel do Carmo, derrotada pela “canalha” que aí se encontrava. Nessa ocasião não houve cidadão que não sentisse a violência aí gerada, sofrendo as consequências físicas, materiais e verbais.

Guerra Junqueiro sugeriu, em 1890, que o Carnaval não se realizasse, tal era a desordem causada por esta festividade. Sugeriu inclusivamente que os “ «três dias de chascos e de farçadas, de hilaridade e de desenfeado» se reduzissem austeramente a «três dias de cinza» em Lisboa e em todo o lado até ao mínimo lugarejo” (2).

Joaquim de Vasconcelos, da Liga Patriótica do Norte, sugeriu que se realizassem um pouco por todo o país sessões de esclarecimento e de civismo, inclusivamente nas próprias igrejas, de maneira a combater esta barbaridade. No entanto, e apesar de todos estes apelos, o Carnaval continuava a realizar-se. No ano de 1890 voltaram a verificar-se graves desacatos durante os dias desta festa tendo, no dia de Carnaval, provocado 35 feridos, que necessitaram de ser hospitalizados. No dia seguinte, “quarta-feira, a população acordou cedo para ir ao tribunal ver os presos da véspera, que desfilavam ainda mascarados” (2).

O Carnaval em Braga era um pouco mais controlado, não fosse esta uma cidade marcada pelos valores da religiosidade. Eram carnavais onde os mais “enthusiastas d’estes folguedos populares eram os mais distinctos civilizados e ilustrados mancebos d’esta cidade, alegrando as formosas damas e o bom povo d’esta muito religiosa capital do Minho com interessantes, e engraçadas cavalgadas”. (3)

Mas a partir da última década do século XIX e inícios do século XX, este entusiasmo popular que se verificava em Braga, por ocasião do Carnaval, foi esmorecendo, muito devido à “falta de massas no povo, sobrecarregado com impostos e trabalho”. (3)

Durante o século XX o Carnaval foi, lentamente, recuperando a sua importância na sociedade portuguesa, com localidades a planear e a trabalhar para o Carnaval durante todo o ano.
Quanto às máscaras de Carnaval, que tiveram grande implementação em Itália, no século XV, em Portugal são actualmente outras: são máscaras de pessoas que sofrem, cada vez mais, mas que se esforçam por não as mostrarem em público.

1) - GEPB - Vol. 5, P. 960;
2) Mattoso, José, “História de Portugal” -Vol. 6 - CL, 1994;
3) “A Opinião”, de 18 de Fevereiro de 1900.

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