Correio do Minho

Braga, sexta-feira

As palavras que nunca te direi

Pecado Original

Conta o Leitor

2018-08-22 às 06h00

Escritor

Autor: Palau

Desempregado, depauperado, degradado e afundado em auto comiseração, já pouca força lhe restava para procurar alternativas à situação em que se encontrava. Num último estertor da sua auto estima moribunda, procurou a inspiração nas inúmeras frases positivas e de auto ajuda que proliferavam na única comunidade que ainda frequentava, a virtual; afinal tudo parecia fácil desde que se quisesse muito, e ele queria, nem que fosse por força das circunstâncias.
Olhou-se ao espelho, analisou-se e elegeu aquilo em que realmente era bom a fazer: beber, fumar e dormir. Seria por aí que iria dar a volta à sua vida.
Iria ser artista, iria procurar nas alucinações alcoólicas a inspiração criativa que o iria diferenciar dos demais; a coisa até poderia ter corrido bem, não fosse o facto de, invariavelmente, no dia seguinte não se lembrar, minimamente, dos resultados da criatividade do dia anterior...

Iria ser pensador ou filósofo, rentabilizando a pouco usual quantidade de “pensativos” cigarros que consumia; afinal estava enganado, já acendia os cigarros sem pensar e o principal pensamento que lhe ocorria era voltar a acender outro cigarro, não era por ai a solução!
Iria ser “gigolo”; afinal passava grande parte da sua vida na “horizontal”, porque não aproveitar a posição para algo mais produtivo? e até rentabilizaria e maximizaria a cama onde se deitava utilizando-a para todas as funções para que tinha sido criada. Poderia ser uma actividade desagradável em alguns momentos? sim poderia mas, como alguém um dia tinha dito: “não há mulheres feias, há homens que bebem pouco...”, desse mal ele, certamente, não sofreria. Mas, analisando melhor o assunto, um evidente entrave ao sucesso se lhe deparou: tendo em conta a forte procura que se perspectivava para esta sua nova actividade, dificilmente teria “capacidade produtiva” para suprir toda essa procura, por muito que o desejasse; havia sempre a solução de arranjar sócios ou colaboradores que lhe permitissem aumentar a dita, mas tal iria, obrigatoriamente, diminuir a qualidade dos serviços prestados pelo desequilíbrio que iria existir entre ele e esses tais. Achou melhor não arriscar...

Num momento inspirado, veio-lhe uma memória: em tempos havia alguém que o considerava extremamente mordaz e directo... Não tinha já nada a perder, porque não aproveitar essa sua elogiada característica? e lançou a ideia: ser porta-voz, intermediário, testa de ferro, ou outra coisa qualquer do género, de tudo aquilo que as pessoas quisessem dizer aos outros e sobre os outros - confissões, segredos, análises de carácter, insultos, verdades desagradáveis, pequenas traições, denúncias de adultério, etc., etc., mas que, por variadíssimas razões - auto defesa, convenções sociais, respeito pela autoridade, auto sobrevivência laboral ou familiar,... - não o pudessem fazer; ele o faria e ele assumiria as culpas e autoria das mesmas.

Parecia um empreendedorismo complicado de implementar e com poucas perspectivas de sucesso mas, surpreendentemente, após pequenas acções de “marketing” directo junto da sua comunidade virtual, as primeiras solicitações/encomendas começaram a surgir e, rapidamente, a bola de neve engrossou, fosse pelo “passa-palavra” desses primeiros clientes, fosse por esses clientes se terem tornado, eles próprios, destinatários dos serviços solicitados pelos novos clientes que iam aparecendo, e o “ping-pong” vicioso crescia.
Certo que este sucesso tinha os seus efeitos colaterais: dificilmente alguém foi alguma vez tão repetidamente insultado e de forma tão inspirada; dificilmente alguém foi alguma vez tão ameaçado na sua integridade física de forma tão imaginativa; rapidamente o seu no de amigos virtuais foi reduzido ao mínimo utilitário (curiosamente, na vida real, poucas alterações sentiu a esse nível; verdade seja dita que só se pode perder o que se tem...); embora muitos dos seus “postas” fossem batendo recordes de “likes” e “coments”, só era contactado para a solicitação dos seus serviços e nada mais. Mas isso pouco o incomodava, afinal já nada tinha a perder.

Em todo este processo acabou por recuperar as virtudes dos seus “Bem Fazeres”: os vapores alcoólicos em muito aperfeiçoaram a sua verve no exercício desta sua nova actividade; a partilha da sua “horizontalidade” passou a ser, recorrentemente, solicitada - vá-se lá saber porquê, mas a “sacanice” tinha o seu “quê” de sensual para uma certa “casta” de fêmeas, por muito que ele tentasse explicar que a “sacanice” de carácter não tinha obrigatória correspondência nos actos físicos íntimos -; e os pensativos cigarros inspiraram-me para novas conclusões no que à Natureza Humana diz respeito:
Afinal a VERDADE é FORTEMENTE NOCIVA PARA A SAÚDE MENTAL DAS PESSOAS DE BEM e de prescrição muito pouco recomendável; Afinal a tão negativamente divulgada HIPOCRISIA, é, na verdade, o mais IMPORTANTE BALUARTE das relações humanas e sociais desta nossa SOCIEDADE MODERNA.
E o sucesso continua

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