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As Pessoas como Valor Acrescentado. Do Super Bock Arena no Porto ao Fórum Económico de Famalicão

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As Pessoas como Valor Acrescentado. Do Super Bock Arena  no Porto ao Fórum Económico de Famalicão

Ideias

2019-11-04 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

A 29 de outubro, realizou-se na Casa das Artes em Famalicão a Conferência “As pessoas como Valor Acrescentado”, no âmbito do II Ciclo de Conferências do Fórum Económico de Famalicão Made in, uma iniciativa da Câmara Municipal de Famalicão, juntamente com o Jornal de Notícias.
Na Abertura da Conferência, o Ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, falou das pessoas como um “recurso crítico” na economia e nas empresas. Mas a questão permanece: o que é que significa ao certo “pessoas com valor acrescentado”? Que as pessoas também possam ser mercadoria e produto, inscrevendo-se, por isso, como ponto de partida e ponto de chegada de uma cadeia de valor e de negócio? A ser o caso, este seria um entendimento bem diferente do ponto de vista proposto pelo Ministro. Mas é essa a lógica que presidiu, por exemplo, ao esmagamento, no Porto, do Pavilhão Rosa Mota pelo Super Bock Arena.
E vejamos, também, o caso da encomenda feita, há anos, por Ana Laborinho, então Presidente do Instituto Camões, ao ISCTE –IUL. Tratou-se de um estudo sobre a língua portuguesa. Falada por 350 milhões de pessoas, a língua portuguesa foi então analisada em termos económicos, sendo estimado o seu valor em percentagem do PIB nacional. Falou-se então de 17%. O estudo foi publicado em 2012, com o título O Potencial Económico da Língua Portuguesa.

A questão debatida em Famalicão, que é o 3.º município mais exportador do país, foi apresentada como o “combate do século”, a ser travado “entre máquinas e homens”. E estiveram à volta da mesa de debate, Carlos Silva, Secretário-Geral da UGT; Gregório Novo, Vice-Presidente da CIP; Carlos Vieira de Castro, Administrador da Vieira de Castro; Tiago Freitas, Administrador da Porminho; e eu próprio.
Ora, sabemos que até tempos recentes as máquinas estendiam o braço humano, acrescentando-lhe capacidade e potência. Mas na nossa época as máquinas estão a perder a sua matriz antropológica e instrumental para investirem o próprio homem. O que as máquinas já hoje fazem é o nosso próprio braço e aspiram até a fazer-nos por inteiro.
Uma das palavras mágicas que traduz a atual condição humana é a hibridez. Aliás, já todos somos híbridos, todos somos mais ou menos protésicos, uma amálgama de natural e de artificial, uma mistura de orgânico e de inorgânico. E sê-lo-emos cada vez mais, através de próteses, lentes de contacto, reconstituição de tecidos e órgãos, enfim, através de biomateriais, que reconstituem o humano, parcial ou totalmente.

A nanotecnologia, a engenharia de materiais e a engenharia de tecidos têm realizado significativos avanços nos biomateriais (uma nova ciência com cerca de 50 anos). Pensa-se que hoje possa haver cerca de 300 mil produtos de origem biomaterial na área de saúde: na cardiologia; ortopedia; oftalmologia; odontologia…
Acontece, por outro lado, que as máquinas aceleraram o humano. Desde o início da Revolução Industrial que a velocidade, a aceleração e a mobilização, assim como o fascínio dos objetos técnicos e o seu consumo, têm caracterizado crescentemente o nosso tempo.

E para onde é mobilizada a humanidade? “Total” (Jünger) e “infinitamente” (Sloterdijk), somos mobilizados para uma qualquer competição, um qualquer mercado, um qualquer ranking, um qualquer empreendedorismo.
Este movimento da época produz, todavia, cada vez menos cidadãos e cada vez mais multidão, tribos e massas. Por outro lado, na investigação, a tecnociência desvaloriza o pensamento. E no espaço público, ao mesmo tempo que existe uma retração do pensamento dá-se uma exacerbação da emoção.
Cantando, em 1909, esta epopeia humana, o poeta italiano Marinetti escreveu no Manifesto Futurista:
“Existe hoje um novo assombro: a beleza da velocidade”; “um automóvel de corrida é mais bonito que a Vitória de Samotrácia”.

Mas é um facto, nas condições tecnológicas da época, mobilizados para as urgências do presente e com a criação do mundo digital (de novos territórios, paisagens, ambientes e conhecimentos), deixámos de ter fundamento seguro, território conhecido e identidade estável.
É a esta situação que chamamos crise permanente do humano.
Neste contexto, de combate entre máquinas e homens, devo lembrar o papel da Comunicação, alertando para o que significa a mobilização tecnológica pelas virtualidades da ciência da informação.

Indo às origens, a mobilização tecnológica coloca a comunicação na dependência da informação e associa a informação ao controle. Pensemos, especificamente, no que é a cibernética. A cibernética é a ciência dos sistemas e do controle da informação e tem como referência maior a obra de Norbert Wiener, publicada em 1948, Cibernética: ou o Controle e a Comunicação no Animal e na Máquina.
E de que é que nos fala, então, a obra de Norbert Wiener? Que a comunicação, que em Wiener é a informação, é uma atividade, tanto para as máquinas como para os humanos. Além disso, o que há a compreender é que os sistemas informáticos constituem a arte do controle da comunicação, tanto nas máquinas como nos animais. Com a cibernética estende-se, pois, até confins o controle humano.
Convoco, finalmente, dois tecnocientistas, que exemplificam bem o debate entre máquinas e homens nos termos em que o vejo.

Um é António Coutinho. Médico imunologista, antigo diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência e coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia no XIX Governo Constitucional, Coutinho afirmou numa entrevista à Folha de São Paulo (06/06/2018) que “a singularidade está totalmente baseada na racionalidade”. E embora o objetivo da ?loso?a seja o mesmo que o da ciência, “explicar o mundo e a nós próprios”, a filosofia “nunca progride”, porque “nós temos um bom processo e eles [os filósofos] não têm”. Em conclusão, “O que é o objetivo da ?loso?a vai ser resolvido pela ciência, e a ?loso?a vai passar à história”.
O outro tecnocientista que aqui convoco é Manuel Sobrinho Simões. Sem dúvida que me identifico com o ponto de vista defendido por este médico e cientista de anatomia patológica, criador e diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IPATIMUP).
Diz Sobrinho Simões: “a definição do que sou é cada vez mais cultural”; “religiões, cultura, costumes, definem-nos mais do que os genes”. “Não consigo explicar coisas como o gosto pela música”. De facto, “Tudo o que é psicológico e sociológico escapa-me, não o domino, dominando o resto [o biológico]”.
Embora apreensivo com a ideia de as pessoas poderem constituir “valor acrescentado”, quero concluir, com o verso do poeta alemão Hölderlin: “Lá onde está o perigo também cresce o que salva”.

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