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As primícias

O Estado desta Nação

As primícias

Ideias

2023-10-25 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

“As primícias dos piores confrontos sobre o nosso solo nacional são já visíveis.” Disse-o Fabien Roussel na sessão parlamentar do passado dia 23. Roussel é secretário-geral do partido comunista francês, e este tipo de expressões são mais da semântica da direita. Dissesse-o Le Pen, ou alguém por ela, e poderíamos tomar a tirada como um dos papões do costume. Saísse-lhe a Roussel como uma réplica ou aparte de hemiciclo, e poderíamos pensá-lo um descuido de linguagem, uma precipitação ou contaminação frásica de duas ideias: mas Roussel disse-o da tribuna, com discurso medido, portanto.
Mantive «primícias», porque Roussel não é destituído, nem o coto por pessoa que desate a falar fino para causar boa impressão, saindo-lhe o tiro pela culatra, porque o vocábulo não se aplique no campo lexical em causa. Primícias, portanto, como os primeiros frutos de um labor, como os primeiros rebentos de um ciclo produtivo que atinge o auge. Primícias, neste caso ácidas ou amargas, difíceis de mastigar e engolir, mas que alguém terá de fazer passar goela abaixo, para que se rasguem e decomponham em estômago que derrote qualquer agente lesivo.
A França abriga a maior comunidade muçulmana da Europa, e a maior comunidade judaica, balanço que os primeiros ganham para os segundos à roda de vinte para um. O avanço dos primeiros sobre os segundos não é de agora, são ódios antigos, são contas que na Europa se acertam por agravos na Palestina. O avanço dos primeiros não é só sobre os segundos, é sobre os católicos também, é sobre as instituições francesas, é sobre uma Ordem que procuram pálida e tolhida, inerte e inane. E como não contribuiu a esquerda, para safra de que Roussel parece ver agora as primícias!
No mesmo dia que Roussel discursava, pronunciava-se Florence Bergeaud-Blackler em entrevista centrada em ensaio seu já com uns meses de publicação. Florence é antropóloga. Florence é investigadora no CNRS, estrutura científica muito alinhada à esquerda e de desenho wok. Florence não vai nessas modas. Sobre o livro de Florence «Le Frérisme et ses réseaux», título que traduzido e explicado daria qualquer coisa como «As redes de influência da Irmandade Muçulmana», pronunciou-se um pilar da esquerda como uma abordagem vulgarizante e tendenciosa (Le Monde 10/10/2023).
Como se faz comum, Florence ver-se-ia alvo de ameaças de morte, sendo colocada sob protecção policial. Corria Abril, desconheço se a situação se mantém. Para fecho de entrevista, perguntada sobre estudos de desenvolvimento, por ela ou outrem realizáveis, responderia que se impunham, impondo-se, aliás, que gala não fizessem os demais investigadores de olhar para o lado, e que o governo se empenhasse. Senão? – perguntaria a jornalista. Senão é a guerra… – responderia Florence com um fio de voz.
Dirá Florence, com outra contundência, o que Roussel prenuncia com as suas primícias? Votos de impotente das cúpulas do Governo: que ficasse a França ao abrigo do drama de Gaza, das ferocidades entre o Hamas e o exército israelita. Apelo pio, porque sem nada de grave – para já! –, todos os dias cresce o número de acções antissemitas. Pior, por meio milhar se contabilizam as desobediências e desafios em sala de aula ao minuto de silêncio em homenagem ao professor assassinado – desrespeito pela vítima, pela Escola, pela República. Centena e meia de alunos estão suspensos, aguardando processo disciplinar na próxima semana. Num Liceu da Normandia foram detidos estes dias dois alunos, porque introduzissem agentes químicos com o fito de produzir explosivos. Um deles, de origem síria, era alvo de vigilância.
Que não cabem aqui tantas primícias!

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