Correio do Minho

Braga,

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As sondagens

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2011-06-10 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Realizou-se recentemente na Universidade do Minho um grande debate sobre as sondagens. O painel era constituído por dois tipos de profissionais: matemáticos e jornalistas. Os primeiros debruçaram-se sobre os cuidados a ter na constituição da amostra e sobre o processo de inferência para o universo, assumindo que é igual estudar as preferências eleitorais e estudar o lançamento dum produto no mercado.

Convenhamos que não é a mesma coisa; está ultrapassada a ideia dos anos cinquenta nos Estados Unidos de que os políticos eram vendidos da mesma maneira que uma pasta dentífrica. É bem mais complexo.

Os segundos, os jornalistas, afirmaram que as sondagens não têm muita importância eleitoral. Elas são importantes para os jornais porque permitem escrever páginas sobre a actualidade política. E, embora sejam caras, compensam. Quando muito funcionam como uma variável, entre outras, no processo eleitoral, afectando muito limitadamente o resultado final.

Faltaram neste debate os cientistas políticos. Mas voltando ao assunto da sondagens. Como explicar que as sondagens dessem durante semanas um quase empate técnico entre o PS e o PSD e que os resultados finais tivessem tido uma diferença de dez pontos percentuais a favor do PSD?

Ou as sondagens foram erradas, ou o eleitorado é tão volátil que, a última hora, mudou substancialmente de partido.
Quero crer que as sondagens estão globalmente correctas e que foram traduzidas as percepções dos eleitores e as suas inclinações de voto. Mas resta a necessidade de explicação.

Foi editado recentemente um exaustivo trabalho - The Oxford Handbook of Political Behavior - que traduz as últimas técnicas e estudos sobre o comportamento eleitoral. Ora, segundo os editores, nos anos sessenta, os comportamentos eleitorais eram substancialmente explicados pelas lealdades partidários e também pela influência religiosa. Desta forma, os políticos traduziam clivagens de classe e a militância partidária tinha grande importância.

Nos anos oitenta assistiu-se ao enfraquecimento da divisão de classes e da importância da religião. Os estudos apontam para o declínio das clivagens sociais como factores explicativos das escolhas eleitorais. Simultaneamente decresce a filiação partidária que, de acordo com o modelo de Michigan, explicava o output eleitoral.

Como consequência do declínio da predisposição eleitoral, ganha relevo a imagem do candidato. Daí que as campanhas eleitorais se tornassem cada vez mais personalizadas, com debates televisivos, entrevistas e passeios pelas ruas. E a última campanha eleitoral portuguesa foi um exemplo acabado desta estratégia.

Simultaneamente, existe menos consenso em como lidar com os problemas, motivando-se os eleitores pela forma como as decisões políticas os atingem de momento. Acresce que, no nosso caso, os eleitores responsabilizaram o governo incumbente pela crise. Na verdade, os portugueses têm relativamente ao Estado um sentimento de amor-ódio. Esperam tudo do Estado, mas não têm sentido da cidadania, culpando o mesmo Estado por tudo o que está mal.
Neste contexto, a opinião pública tornou-se mais fluida e menos previsível.

Em conclusão, os eleitores repercutiram no governo, retratado na pessoa do Primeiro-Ministro as culpas da crise, esquecendo-se que se trata fundamentalmente duma crise financeira e da incapacidade política da Europa em lidar com a mesma. Os países europeus comportam-se como entidades individuais, repercutindo nos mais frágeis e periféricos os problemas de espaço europeu. Esqueceu também parte dos eleitores que o pacote financeiro foi negociado pelo governo PS e que impõe restrições, políticas, metas e indicadores de avaliação que tornam o governo que aí vem mero executor dessas medidas.

Existe, porém, uma diferença que não é acidental. Os partidos do actual governo desejavam este pacote há mais tempo e, por isso, derrubaram o governo, provocando eleições. Não venham agora dizer que o “país está de tanga”.
De qualquer modo, em nome de país, desejo boa sorte ao novo governo.

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