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As subculturas dos adeptos e a violência

Direito à Educação

Ideias

2010-04-21 às 06h00

Pedro Dias Pedro Dias

O Instituto nacional de altos estudos de segurança e da justiça de França (INHESJ), publicou recentemente um dossier de estudos, sobre a segurança no desporto: riscos e ameaças. Neste dossier estão publicados 24 textos sobre a temática relacionada com a segurança no desporto, um dos artigos refere-se exclusivamente às subculturas dos fans de futebol e a violência em Portugal.

A violência registada no desporto Português, particularmente no futebol, contribuiu para um aumento de tensão nos jogos, que advém do crescimento da rivalidade, mas também, do crescente descrédito sobre a justiça e equidade registados nas competições.
O aumento do mencionado descrédito, conjugado com as dinâmicas de fiscalização e vigilâncias lançadas na década de noventa, contribuíram para a activação das denominadas “solidariedades mecânicas” entre grupos com interesses comuns, num contexto de oposição/confrontação ou radicalização.

Esta questão propiciou a manifestação de revolta colectiva violenta, e a institucionalização de formas de violência premeditada entre alguns grupos de adeptos “ultras”. Consequentemente temos sido confrontados regularmente com explosões de violência colectiva, assim como, formas de violência premeditada entre alguns grupos de fans (“adeptos”), denominados por claques.

Para a maioria dos que se interessam por este fenómeno, é possível encontrar algumas similitudes nos valores e comportamentos associados à subcultura dos fans, nomeadamente, uma implicação emocional importante, com uma forte identificação ao clube, a incorporação de valores ocidentais tradicionalmente masculinos associados à força física, virilidade e superioridade, e a reprodução de um exigente código de honra onde se destaca a vingança em caso de ofensa.

Estudos recentes, apontam para a possibilidade de existir um nexo de causalidade, entre a hostilidade, comportamento violento das claques e o agravamento das relações institucionais entre os clubes.

Na segunda metade da década de setenta surgem as primeiras claques organizadas no futebol Português, a Juve leo em 1976 no Sporting CP, seguida da formação dos Diabos Vermelhos no SL Benfica e dos Dragões Azuis no FC Porto, cujo reconhecimento pelos respectivos clubes ocorreu apenas em 1982. Posteriormente, outras claques foram sendo criadas, Red Boys no SC Braga, White Angels no Vitória SC, tendo sido identificadas em 2004 quarenta e três claques ultras no nosso país.

O drama de Heysel em 1985 alertou a comunidade nacional e internacional para a necessidade de serem tomadas medidas de prevenção contra a violência no desporto, nomeadamente nos jogos de futebol. Nesse sentido, os principais Clubes tentaram controlar, sem sucesso, o funcionamento das claques, facto que provocou cisões no seio destas e originou a criação de novas claques, que nasceram dos movimentos de dissidência, como foi o caso dos No Name Boys no SL Benfica, que não se consideravam uma claque ultras.

A crescente violência que se regista no desporto Português, e em particular nos jogos de futebol, aparenta indicar um acréscimo de tensão durante os jogos, devido não só ao aumento da rivalidade, mas também ao aumento da desconfiança em relação à justiça dos campeonatos.
Não é difícil de explicar como as “solidariedades mecânicas” são activadas no seio de grupos rivais. Na realidade, a coesão dos grupos parece sair reforçada no contexto de posição/confrontação.

Apesar de difícil compreensão, a violência associada às subculturas do futebol, em particular os ultras, não pode ser dissociada da seriedade com que é encarada pelos fans, bem como, a importância dos investimentos em capital emocional colocado na defesa do clube.
Confirmando-se a existência de um nexo de causalidade, entre a hostilidade, comportamento violento das claques e o agravamento das relações entre os clubes, será que isto é suficiente para os responsáveis desportivos, e particularmente do futebol, redireccionarem o focus da sua acção? Deveria ser.

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