Correio do Minho

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As Tabernas de Braga

Personalidade e carater

As Tabernas de Braga

Ideias

2020-05-24 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Não sabemos ainda, com clareza, como irão reagir os portugueses e os turistas quando a normalidade plena regressar a Portugal, após o período de instabilidade provocado pela pandemia que nos afeta. Com segurança sabemos que os 132 restaurantes de Braga sofreram e sofrem muito com esta interrupção, colocando em causa 1341 empregos, só no concelho de Braga.
No contexto das casas de restauração, estavam a ganhar protagonismo as tabernas típicas, que serviam comida tradicional e atraíam cada vez mais pessoas.
Atualmente na moda, as tabernas foram associadas noutras épocas, em Portugal, a uma conotação muito negativa, pois eram frequentadas na sua maioria por pobres e mendigos. Aí, o cheiro era tão intenso que havia a necessidade de colocar à porta ramos de loureiro para perfumar o ar!
Em Braga, à semelhança de outras cidades, existiam várias tascas com uma clientela, sobretudo masculina. Aí ocupavam o seu tempo de descanso a jogar, ou a debater temas da sociedade que, de acordo com o grau de instrução, eram muitas vezes limitados no seu conteúdo. A frequência desses espaços permitia esquecer as dificuldades da vida, que facilmente se evaporavam entre copos de vinho ou de aguardente. Ao final da tarde, ou da noite, muitas dessas discussões acabavam em cenas de pancadaria.
A mendicidade e as tabernas andaram totalmente associadas durante o século XIX e praticamente até à década de oitenta, do século passado.
Um dos piores períodos em Braga ocorreu em 1929, altura em que a miséria assolava a nossa região. Nesse ano, que ficou célebre pela “Quinta- feira Negra”, crise económica e financeira que surgiu em outubro nos EUA, os mendigos em Braga eram em tão elevado número que motivou fortes protestos junto das autoridades municipais e ainda junto do Governo Civil.
A razão desses protestos prendia-se com o facto de a maior parte destes mendigos deslocar-se em grande número de outros concelhos e concentrarem-se em ruas específicas, ocupando aí as tabernas existentes.
A rua de S. Marcos ou a rua Justino Cruz eram dois locais onde a mendicidade e as tabernas mais estavam associadas. No dia 6 de janeiro de 1929 o jornal ‘Correio do Minho’ referia que na rua Justino Cruz “apesar da sua pequena extensão, se aglomeram mendigos como se aquela rua fosse caminho para uma romaria!”.
Mas não era só nestas duas ruas que a mendicidade e as tabernas mais se faziam notar pois em “todos os pontos da cidade sucede a mesma lamentavel exibição”.
A atração dos mendigos por Braga era de tal forma acentuada, que esse “mal está a alastrar e já de terras estranhas a este concelho tem emigrado bastantes industriais que aqui tem vindo estabelecer residencia”. E para comprovar isso basta percorrer “as portas das igrejas, as ruas e as avenidas” para se verificar facilmente que essa “legião vae crescendo...”.
No dia 9 de janeiro de 1929, o mesmo jornal abordava novamente esta situação, uma vez que o “numero e o perigo das tabernas é cada vez mais evidente e todas as medidas que tendam a reduzir esse perigo merece gerais simpatias”.
De facto, por toda a cidade existiam tabernas em número elevado e sempre ocupadas pelos tradicionais clientes: “a mendicidade pelas ruas, que neste momento se alastra pavorosamente por todas as arterias da cidade, tomando o caracter dum verdadeiro flagelo” preocupava muito os bracarenses que então julgavam ser detentores das boas práticas e dos bons comportamentos cívicos.
Por exemplo, no dia 8 de janeiro de 1929, um grupo de moradores de Braga, que entendia estar a ser prejudicado pelo barulho proveniente do interior e imediações das tabernas, resolveu protestar junto do Governo Civil. Assim, “uma comissão de moradores dos mais categorizados da rua de S. Marcos procurou a autoridade superior do distrito, insistinto para que fossem encerradas as tabernas que naquele local servem de antro a creaturas de moral e costumes duvidosos”.
Na ocasião, o Governador Civil de Braga ouviu-os com toda a atenção e, no sentido de “restringir a acção desordeira e imoral das tabernas e reprimir o abuso da mendicidade”, enviou ao comando da Polícia de Braga as orientações no sentido de “acabar de vez com certas exibições pouco próprias de terras civilisadas”. Assim, ordenou que a Polícia seguisse as seguintes orientações:
a) Proibir a colocação de ramos de loureiro ou doutras arvores à porta das tabernas existentes nas principais arterias da cidade;
b) Indicar-me quais as tabernas que, pela sua frequência de reputação duvidosa ou frequentes conflitos, convirá que sejam encerradas ou que não devam funcionar depois do toque habitual do recolher;
c) Exercer intensa repressão da mendicidade, fazendo recorrer às terras da sua naturalidade os mendigos de fora do concelho;
d) Proibir nas ruas e praças da cidade a exibição de descantes lamurientos acompanhados ou não de instrumentos musicais com o fim de angariar esmolas;
e) Exercer intensa fiscalização das posturas municipais, especialmente na parte respeitante à higiene e saúde publica.
No ano seguinte, a Câmara Municipal de Braga promulgou um edital, redigido por Francisco Lage e pelo coronel Albino Rodrigues, que regulamentava as condições necessárias para que fossem autorizadas a funcionar as tabernas. Contudo, essas indicações de ordem física, higiénica e social, nem sempre foram cumpridas e o flagelo destas “tabernas de Braga” manteve-se durante décadas.
Não se pense que o problema das tabernas ficou resolvido nesse ano. Por exemplo, passados mais de 17 anos, em 1947, continuavam os problemas das tabernas em Braga, existindo estes estabelecimentos, imagine-se, em rés-do-chão de escolas!
A existência de tabernas de “frequência duvidosa” foi uma realidade que se manteve até há poucas décadas, quer em Braga, quer na nossa região.
Hoje, como sabemos, as tabernas são locais de frequência semanal para muitas pessoas, constituindo locais de convívio e socialização que carateriza estes tempos que vivemos.
Agora, o que todos desejamos é que esta forma de socialização possa manter-se no futuro, apesar do distanciamento a que presentemente todos estamos aconselhados a manter.

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