Correio do Minho

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Ascensão da robótica e futuro do emprego

Sem paralelo

Ideias

2016-04-23 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Qual será o futuro do emprego com a ascensão da automatização/robótica e consequentes ganhos de produtividade na economia? Será possível conciliar mais automatização/robotização nas empresas e mais emprego (líquido)? Não será o nível líquido de emprego afectado negativamente por tornar-se cada vez menor a utilização da força de trabalho na actividade produtiva? Com base em estudos recentes podemos inferir que a ascensão da automatização/robotização está a provocar uma série de efeitos perversos para o factor trabalho, em particular, na redução (líquida) de emprego, nas suas organizações de classe, nos processos de trabalho, na qualificação profissional, nas condições de trabalho, na saúde do trabalhador e nas políticas de ocupação.

Assim, um recente estatístico feito nos Estados Unidos refere que 47% dos empregos estão ameaçados de extinção por substituição tecnológica/robótica. A justificativa oficial para essa extinção (líquida) de emprego tem sido, como sempre, a de hipoteticamente permitir organizar melhor o trabalho, racionalizando-o e readaptando-o a novas funções. Mais, tem vindo a aumentar o número de empresas que transferem muitas das suas actividades para terceiros em nome da manutenção dos seus padrões de qualidade! Porém, na realidade, tem vindo a constatar-se que muita dessa “terceirização” é feita à custa de uma cada vez maior precarização da força de trabalho.

Tem vigorado a ideia de que com o advento da Revolução Industrial (século XVII), “os progressos tecnológicos sempre destroem alguns tipos de trabalho, mas que criam, ao mesmo tempo, outros tantos, o que tem servido para travar a contestação a automação das empresas”.

Ora, é isso que se passa no mundo presente? Para responder a esta questão citaremos dois dos maiores especialistas na matéria e ambos norte-americanos:
(1) H. Lipson: “As evidências demonstram que a tecnologia está a destruir empregos, a criar novos e melhores, mas também em menor quantidade”;
(2) M. Ford: “Imagine uma economia completamente automatizada, onde quase ninguém terá um trabalho (ou rendimento) e em que as máquinas farão tudo. Muito antes de atingirmos esse ponto, os modelos de negócio concebidos para os mercados de massas já serão insustentáveis. De onde virá o consumo? E, se ainda existir uma economia de mercado, por que razão a produção deverá continuar se não existirem consumidores viáveis que possam adquirir as mercadorias produzidas?”.

Quer dizer, a ascensão da automação/robotização sendo possivelmente uma boa notícia para os empregadores isso acontecerá apenas a curto prazo (pelos elevados lucros esperados da automatização das empresas), porém, a médio e longo prazo os efeitos do uso massivo de “robots” seriam desastrosos por extinção do rendimento disponível dos trabalhadores (a maioria da população empregada), do consumo e, logo, da acumulação capitalista.

A propósito, refere M. Ford: “inebriados pelo poder dos avanços contínuos na tecnologia, o capital passa a acreditar em operar com sucesso os seus negócios sem a componente humana, um erro crasso claro está. Se assim fosse, poderíamos inferir que estaríamos muito próximos de uma época caracterizada pelo acentuar, e muito, do desemprego e da desigualdade social, acompanhada mesmo pelo colapso da economia capitalista”.

Ou seja, por um lado, os salários sendo a principal componente dos rendimentos produtivos permitem aos trabalhadores adquirirem as mercadorias de que carecem, por outro, o uso massivo de “robots” implica que a oferta de mercadorias se faça com rapidez, eficácia e qualidade sem paralelo: Logo, a oferta global tenderá a exceder, e muito, a procura global na economia.

Daí que possamos extrair três grandes efeitos contraditórios desse processo:
(a) o rendimento disponível dos trabalhadores baixa, reduzindo o consumo de mercadorias;
(b) a oferta de mercadorias aumenta significativamente;
(c) as taxas de lucro e a acumulação do capital diminuem.

Conclusão, a realidade actual aponta para a destruição (líquida) de postos de trabalho com o uso massivo de “robots”. Por sua vez, em função das suas próprias contradições o capitalismo tenderá a entrar em colapso antes da automatização/robotização total. Quer dizer, o modo de produção capitalista é uma contradição em processo, quanto mais avança tecnologicamente, mais aumenta a sua composição orgânica (mais capital e menos trabalho) e as taxas de lucro baixam.
Porém, o capitalismo exige o seu contraponto, o trabalho que com a ascensão da automatização/robotização tende a diminuir, logo…

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