Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Assédio

Braga e a Rampa da Falperra

Conta o Leitor

2019-08-25 às 06h00

Escritor Escritor

José Handel de Oliveira

A Carlota é uma eficiente funcionária de uma clinica bracarense, onde, há muitos anos, sou utente. É sempre ela, com um sorriso nos lábios, da sua cara bonita, quem me marca os exames de rotina, análises e até, gentilmente, me mede a tensão arterial, quando, por qualquer motivo, a enfermeira está impedida. Agrada-me o seu trabalho, feito com boa disposição e estabelecendo uma conversa interessante e de apreciável cultura, ou não fosse ela ter frequência universitária. Sempre, mas mesmo sempre, não tive qualquer pensamento condenável, para tão encantadora pessoa, até porque embora me tivesse confessado ter já quarenta anos, o seu aspecto extraordinariamente jovem, ainda mais nos separava na questão de idades.
Porém, um dia em que lhe mostrei uma notícia publicada num jornal de que sou colaborador e em que relatava um acidente que sofrera na sua habitação, ela ficou tão satisfeita que me perguntou se me podia dar um abraço. Claro que concordei imediatamente e ao sentir aquele corpo esbelto a roçar no meu e os seus braços, bem torneados, a rodear-me, senti uma emoção tão forte que, a partir daí, comecei também a reparar no seu corpo escultural que quer encoberto por um vestido ou por uma t-shirt com calças de ganga, deixavam adivinhar formas harmoniosas e porque não dizê-lo, tentadoras. Fixei os seus bonitos olhos castanhos e o cabelo comprido da mesma cor, ligeiramente escurecidos e comecei a sonhar como seria maravilhoso tê-la por companhia. Procurei ver se ela sentia algum interesse por mim. Assim, quando ao cumprimentar-me – os seus apertos de mão são inesquecíveis – se queixou que a minha mão estava gelada, disse-lhe que a sentia assim por a Carlota ser muito quente, mas não reagiu. Noutra altura, em que fazíamos contas, perante um número elevado que frisei, disse-me. Oh Sr. Ricardo, olhe que me deixou assustada. Respondi-lhe que eu gostaria era de a encantar e não assustar. Mas não acusou o toque e a conversa ficou por ali.
Um dia, quando me dirigia para a estação para apanhar um comboio que me levasse ao Porto, lembrei-me que tinha um documento para entregar na clinica. Dirigi-me rapidamente à recepção, onde não encontrei ninguém. Chamei pela Carlota e como não obtivesse resposta, espreitei para o Gabinete que tinha a porta entreaberta. Contra a luz vi a sua figura delicada e perturbadora. Carlota apercebeu-se da minha presença e pediu-me desculpa de não ter ar-tendido imediatamente, mas estava ao telefone. Fiquei a pensar. Em que Serviço, algum funcionário se desculparia por ter feito esperar menos que dois minutos? Sensibilizado, tirei do bolso a pasta de chocolate que levava para substituir a refeição que não tivera tempo de tomar e ofereci-lha. O seu obrigado carinhoso, acompanhou-me toda a viagem.
Contudo, as minhas esperanças começavam a diluir-se, quando, inesperadamente recebi um telefonema da Carlota a dizer-me que lera um conto meu que fora publicado num jornal local e que tinha ficado maravilhada, aguardando, com ansiedade, pelo próximo pois estava curiosa. Perante isto, resolvi arriscar tudo para a conquistar. Nessa tarde dirigi-me à clinica, numa hora em que sabia que o movimento era quase nulo e disse-lhe que tinha uma declaração muito importante a fazer-lhe, mas tinha medo que ficasse aborrecida. Sr. Ricardo, já nos conhecemos há tanto tempo que não há nada que vindo de si me aborreça. Pedi-lhe então para não me tratar por senhor. Na minha terra dizem que o Senhor está no Céu. Concordou e eu, a custo e quase gaguejando, acabei por lhe dizer quanto gostava dela e quanto a queria fazer feliz. Nessa altura fez-se uma pequena pausa para atender um cliente, mas não tardou a voltar para junto de mim e incitou-me a continuar. Afiancei-lhe então o imenso amor que sentia por ela e que desejava muito que fosse minha. Poder acariciar os seus lindos cabelos, sentir o seu perfume inebriante. Apreciar as caricias que eu lhe merecesse. Enfim, tornar-me no homem mais feliz do mundo. E de uma coisa podia estar certa. Se ansiava intensamente pelos seus carinhos, a verdade é que faria tudo, mas mesmo tudo, para a fazer esquecer de outras experiências que, naturalmente, já tivesse tido. Como me disse que gostava de viajar. Poderíamos, nas suas férias, fazer uma grande viagem.
Se não tem medo do mar, visitaríamos as ilhas do Sal e de S. Vicente, em Cabo Verde, Porto Santo e Madeira e terminaríamos nas maravilhosas nove ilhas dos Açores. De todas estas terras, falar-lhe-ia das suas belezas, história e gastronomia. E parei para ganhar fôlego. A Carlota que me parecia ouvir com muito interesse, pousou uma das suas delicadas mãos sobre as minhas que tinha cruzadas no balcão e disse-me: Convenceu-me… e baixando os olhos, murmurou: Serei sua.
Ao ouvir isto, todo o meu ser estremeceu. Só tinha estremecido assim quando na Guiné, numa ronda nocturna, ao passarmos numa Tabanca – aldeia indígena – um dos soldados que seguia na parte detrás do jeep, disparou acidentalmente a G-3, tendo a bala passado a centímetros da minha cabeça e o estouro junto ao meu ouvido, abalara-me muito.
Radiante da vida ao sentir o suave toque daquela mão que prometia carinhos maravilhosos, só me ocorreu dizer-lhe que iria pôr um anel de brilhantes num daqueles dedos. Embora soubesse que não brilhariam tanto como os seus olhos, mas, quando reparasse nele, certamente se lembraria de mim. Encorajado, propus-lhe que quando saísse do trabalho, passasse por minha casa para comemorarmos. Não aceitou e explicou-me que sendo sábado no dia seguinte, a zona de recepção e os consultórios, estariam sem ninguém, pelo que ficaríamos à vontade. Na manhã desse dia telefonar-me-ia a marcar a hora do encontro e despediu-se com um até amanhã.
Nessa noite mal consegui dormir e levantei-me muito cedo. Tomei um demorado duche, salpiquei-me, levemente, com uma água-de-colónia de boa qualidade, fiz a barba com todo o cuidado, esmerei-me no penteado e resolvi vestir uma roupa que me desse a aparência de mais novo. Calcei os confortáveis sapatos de verão, vesti umas calças claras e um polo azul que todos me diziam que ficava muito bem. No bolso das calças guardei apenas uma pequena carteira com o cartão de cidadão, algum dinheiro e as chaves de casa. Esperei e desesperei e nem o facto de pensar que dentro de pouco tempo podia ter a Carlota sentada no meu colo e beijar-lhe aquela boquinha bem desenhada que, imaginava, doce como o mel, me acalmava. Mas, finalmente, o telefone tocou e ela disse: Ricardo, apareça pelas 10H00. Ao sair de casa vi que o tempo ameaçava chuva. Peguei no meu guarda-chuva que reduzi ao mínimo, metendo-o na respectiva capa de napa, ficando só com a moca de fora. Chegado à clinica, Carlota esperava-me junto à entrada dos consultórios, onde me introduziu, dizendo-me: Vá-se despindo que eu volto já, saindo por uma pequena porta de acesso. Quando, sentado na marquesa, só me faltava tirar os boxers, a porta por onde tinha saído a Carla, abriu-se com estrondo e entrou um matulão cabeludo, de bata verde desabotoada, deixando ver um matagal de pelos negros hirsutos do peito e as manápulas com luvas de latex que para aumentar o meu espanto me disse: Ora vamos lá ao exame prostático! Rabinho para cima. Colérico, levantei-me de um salto e agarrando no guarda-chuva que estava em cima de uma cadeira, juntamente com a roupa, mesmo ao meu lado, apontei-lho à cabeça e gritei: Nem para cima, nem para baixo! Seu estupor! Olhe que eu perdi o medo na Guiné! Se avançar, rebento-lhe com o focinho. O homem que contava encontrar um morcão apaixonado – Apaixonado sim, morcão não – recuou um passo. Esgrimindo sempre o improvisado bastão em frente à cara dele, enfiei os sapatos e com a outra mão agarrei a roupa, escapulindo-me para o local dos elevadores, aproveitando para vestir as calças. Nessa altura abriu-se a porta do ascensor e saiu uma empregada de limpeza que ao ver-me de tronco nu, disse um palavrão, benzeu-se e afastou-se rapidamente, arrastando o balde e a esfregona. Meti-me no elevador, vesti o polo e logo que cheguei ao rés-do-chão, caminhei rapidamente para casa, amaldiçoando a minha sorte.
Mais tarde soube que a Carlota contara a uma amiga que pedira a um enfermeiro seu conhecido para pregar um susto a um admirador indesejado que queria dela mais do que a amizade. Mas fora discreta e não mencionara o meu nome, o que não aumentou o meu desgosto.
Resultado de tudo isto. Mudei de clinica.

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