Correio do Minho

Braga, terça-feira

Assédios

Combater a DPOC

Ideias

2018-01-29 às 06h00

Carlos Pires

1. Esta é a minha primeira crónica neste Novo Ano (que já vai longo) de 2018. E, em jeito de retrospetiva e se olhar para a panóplia de acontecimentos mais importantes ocorridos no ano findo (2017), elejo como o facto mais relevante, com consequências de alteração positiva ao nível dos comportamentos e das interações humanas, o movimento #MeToo. De que se trata? Inúmeras mulheres / personalidades públicas, e em diversas áreas do cinema à moda, passando pela política, mas também pelo desporto -, e um pouco por todo o mundo, denunciaram situações concretas de abuso sexual de que foram alvo, identificando o agressor. As vítimas são maioritariamente mulheres, mas também há homens.
O movimento, que iniciara em Outubro, nos EUA, com várias atrizes a virem a público denunciar atos de assédio sexual imputados ao produtor cinematográfico, originou uma avalanche de outras queixas, um pouco por todo o mundo. Várias cabeças rolaram v.g.: a demissão do ministro da Defesa do Reino Unido, Michael Fallon; o afastamento do ator Kevin Spacey da série televisiva House of Cards.
Agressores houve condenados em processos de natureza criminal, em casos mais graves - o antigo médico da seleção de ginástica dos EUA, Larry Nassar, foi condenado recentemente a uma pena entre 40 a 175 anos de prisão por abusos sexuais a dezenas de atletas, incluindo-se neste lote de vítimas  a quádrupla campeã olímpica de ginástica Simone Biles.
A parte positiva deste movimento, acredito, reside pois na alteração de cultura instalada. Uma cultura que, até aqui, assentara na ideia de que este tipo de agressão é uma brincadeira, a ser tolerada. Como já referi em anterior crónica, a culpa não é só desses predadores. É também nossa. É nossa porque olhamos para o outro lado, porque fingimos que não vemos ou porque nos autoconvencemos (desonestamente) que é normal. Repito: fomos todos cúmplices desta cultura nojenta que dá a quem tem poder o direito de abusar de quem não o tem.


2. Na semana passada, no Reino Unido, foi anunciado o encerramento de um clube de homens, responsável há 33 anos por organizar um jantar formal anual, cujos fundos revertiam a favor de instituições de beneficência. Para esses jantares eram contratadas mulheres altas, magras e bonitas, como empregadas de mesa, a quem era pedido que usassem saltos altos e roupa sexy. A polémica instalou-se em virtude do último jantar ocorrido e que contou com uma jornalista infiltrada, tendo esta posteriormente revelado que as mulheres teriam sido assediadas, algumas delas apalpadas e objeto de comentários lascivos. Um dos organizadores do jantar, presidente do Departamento de Educação do Governo britânico, demitiu-se e a primeira-ministra britânica, Theresa May, condenou o assédio relatado, admitindo que existe ainda um longo caminho a percorrer no tratamento que é dado às mulheres. 
Desconhecendo eu mais pormenores sobre o caso, posso desde já avançar que podemos, infelizmente, estar perante um exagero de reações. Porque nem tudo pode ser considerado assédio sexual, censurável. Porque pode ter havido consciente conivência das mulheres em causa, sabedoras de resto daquilo para o qual iam, parece-me... Aliás, alguns movimentos feministas reclamam mesmo a legitimação e regulação da prostituição como atividade a ser socialmente tolerada (não quero com isto dizer que as mulheres que estiveram presentes no dito jantar fossem prostitutas).
Ainda, aproveitando parte da argumentação do movimento contrário ao movimento #MeToo, e que foi liderado pela atriz francesa Catherine Deneuve, há o chamado flirt ou galanteio que não pode ser considerado agressão sexual. E há a ação consciente e voluntária de mulheres, às quais não reconheço o direito de virem, depois, apresentar lamurias ou queixumes, tendo em conta o contexto, o conhecimento prévio que tinham de tudo.
Ao invés, e distintamente, há que censurar os comportamentos daqueles, homens ou mulheres, que aproveitam o poder e o dinheiro que têm para exercerem liberdades sexuais, mais ou menos explícitas, perante os/as mais jovens, mais dependentes e mais frágeis. E essa censura existe, quanto a mim, mesmo que aparentemente estes anuam ou acordem, porque a situação de dependência em que estão investidos assim os impele a fazer.
Misturar as situações, colocar tudo no mesmo saco, é injusto e perigoso. Além de que desvaloriza a análise dos casos que verdadeiramente merecem censura.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

18 Dezembro 2018

O seu a seu dono!

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.