Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Assim se constrói o filme das nossas vidas

Viagem a Viena

Ideias

2020-03-29 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quando os irmãos Lumière apresentaram publicamente o filme “L’ Arrivée d’un Train à La Ciotat”, no Salão Grand Café, em Paris, em 1895, estavam a dar início a uma indústria cinematográfica que marcou, até aos dias de hoje, o quotidiano na vida das pessoas.
Dos vários filmes realizados, alguns focaram-se no terror, no drama e na peste. Foi o caso do filme “Contágio” (2011) dirigido por Steven Soderbergh, e que se centra numa cidadã americana que regressa aos EUA oriunda da China, de onde transporta o vírus que rapidamente se espalha por toda a humanidade.
Se recuarmos no tempo, até ao início deste ano de 2020, ou até há cerca de um mês, poucos imaginariam que o cenário retratado no filme “Contágio” jamais poderia tornar-se realidade. Contudo, aquilo que temos assistido em Portugal e no mundo, diariamente, cada vez com mais intensidade, leva-nos a pensar que somos atualmente atores de um filme que sabemos onde começou e quando, mas não sabemos quando e onde terminará. E algumas passagens deste novo filme, o nosso, são já bem conhecidos de todos.
O mundo já passou por várias dificuldades, nomeadamente crises políticas, autoritarismos, conflitos militares, desastres climáticos e até epidemias mortíferas. No entanto, o que estamos a viver, em simultâneo, é bem preocupante, pois todos os países, todos os povos, todas as economias, todos os sistemas de ensino, todos os sistemas de saúde, ao mesmo tempo, totalmente em paralelo, estão a ser afetados por esta epidemia silenciosa.
Estamos a assistir a um momento deste filme, marcado pela quase totalidade dos países infetados, e cujas cúpulas políticas, económicas, culturais, desportivas são atacadas, inclusivamente os próprios profissionais de saúde!
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, duvido que algum realizador imaginasse uma cena envolvendo o transporte de pessoas, como a que ocorreu esta semana em Cádis (Espanha) com um grupo de 28 idosos, transferidos de um lar por estarem infetados com o coronavírus e recebidos à pedrada por alguns populares.
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, duvido que algum realizador imaginasse um cenário que inserisse idosos abandonados, ainda vivos, a conviverem lado a lado com cadáveres. Mas isso aconteceu em Madrid, Espanha.
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, duvido que algum realizador imaginasse um quadro em que se verificasse, em simultâneo, o colapso dos serviços funerários de várias localidades e estas deixassem de receber cadáveres por falta de equipamentos;
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, duvido que algum realizador imaginasse uma passagem em que a música principal advinha dos sinos das igrejas e das sirenes das ambulâncias;
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, duvido que algum realizador imaginasse uma cena em que se verificasse a interdição de assistir ao funeral de um amigo ou de um familiar. Mas estamos a viver isso. Hoje, agora;
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, duvido que algum realizador imaginasse episódios verdadeiramente dramáticos de transferência de grupo de idosos de lares para instituições de saúde. Transportes efetuados em autocarro ou cortejos de ambulâncias, com máscaras colocadas e com botijas de oxigénio junto a si. Muitos deles em cadeira de rodas ou em macas! Mas aconteceu e continua a acontecer à nossa volta.
Destaco ainda o desespero que se vive nos lares em Portugal, com pessoas infetadas e desesperadas perante o drama que estão a viver. Destaco aqui o caso dos idosos porque são pessoas vulneráveis, muitos deles totalmente dependentes de terceiros. Trata-se de pessoas que estão na fase final da sua vida e merecem vivê-la da forma mais humana que possamos dar.
São idosos que, cada um à sua maneira, deram muito à economia, ao ensino e às artes de um país.
São idosos que viveram momentos difíceis durante o Estado Novo, que passaram fome, frio e miséria e aguentaram o autoritarismo do regime Salazarista.
São idosos que contribuíram para a implantação e consolidação da democracia em Portugal, há quase 46 anos.
São idosos que não tiveram as mesmas condições de acesso à educação que a dos seus filhos e netos, mas que proporcionaram aos seus descendentes os meios para uma formação mais sólida e completa.
São idosos que se deslocavam às mercearias e compravam de forma muito limitada pão, arroz, açúcar ou farinha.
São idosos que trabalhavam desde o nascer ao pôr do sol, sem refeições dignas durante o dia e sem dinheiro para pagar as despesas mensais.
São idosos que passaram uma vida de sofrimento para construirem uma casa.
No filme que estamos a viver, o das nossas vidas, não podemos permitir que exista uma cena que retrate o abandono aos idosos, num momento tão difícil como este: um momento em que sentem estar a viver a fase final das suas vidas da forma mais dramática, mais humilhante, mais desamparada, mais isolada, mais assustadora que alguém possa imaginar! Os idosos são a nossa memória mais próxima. São os nossos avós, são os nossos pais, seremos nós, em breve.
O quase total encerramento à escala mundial da atividade económica e comercial, o cancelamento de eventos desportivos como os Jogos Olímpicos ou o Europeu de 2020, o cancelamento de festas que juntavam centenas de milhares de pessoas, o cancelamento de atividades religiosas na época da Páscoa, é uma realidade nunca antes vista e por isso também muito intensa e desgastante a nível emocional.
O Papa Francisco, há dois dias ape- nas, retratou desta forma o momento atual do filme das nossas vidas: “Fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furiosa. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados… e neste barco estamos todos, todos.”!

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