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Auschwitz: o dever de não esquecermos

Beco sem saída

Ideias

2015-02-06 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

No passado dia 27 de janeiro, dia internacional da recordação do Holocausto, celebraram-se os 70 anos da libertação dos campos de morte e extermínio de Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau. Visitei-os o ano passado por imperativo moral de respeito pelas suas vítimas. Foi no dia 6 de Junho de 2014, por coincidência aquele em que se comemorou o septuagésimo aniversário do “dia D”, data de início da operação Overlord que iria conduzir à derrocada do nazismo na Europa.

É inimaginável o sofrimento aí ocorrido, sobretudo nesses últimos sete meses que separam aquelas duas datas, a do princípio do fim e a do dia em que o Exército Vermelho encontrou os últimos sobreviventes. Dois anjos da morte que encarnaram em médicos nazis, Heinz Thilo e Johann Paul Kremer denominaram Auschwitz, respetivamente, “anus mundi”, o ânus do mundo e “o mais horrível de todos os horrores”.
Auschwitz e Birkenau percorrem-se em silêncio, grande comoção e lágrimas. Tudo o que ali se passou ultrapassa a nossa compreensão.

Das muitas histórias que pude ouvir e ler sobre o que aconteceu nesse lugar durante esses tenebrosos anos, impressionou-me sobremaneira a de Inge-Brigitt Höss, cujo pai foi o brutal comandante dos campos, Rudolf Höss, sentenciado à morte por enforcamento em 1947 num patíbulo que permanece à entrada do crematório de Auschwitz I. Inge-Brigitt teve uma infância invulgar: viveu em Dachau até aos 5 anos, depois em Sachsenhausen até aos 7 e mais quatro anos em Birkenau, lugar que a sua mãe descreveu como “paraíso”.

Conseguiu fugir para os EUA e aí se manter no anonimato durante mais de quarenta anos, não sem antes ter feito uma carreira de modelo na conhecida casa espanhola de moda Balenciaga. Numa entrevista dada ao Washington Post em 7 de setembro de 2013 definiu o pai como “um homem sensível” e o que sobretudo recorda de Birkenau são os cavalos e os piqueniques nos jardins de villa em que viveram junto aos blocos dos prisioneiros e aos crematórios.

Inge-Brigitt parece ter abafado na sua memória os sons das balas dos constantes assassinatos de crianças, doentes e velhos, sobretudo, mas também dos clamores horrendos de quem foi punido por tentar sem sucesso o suicídio ou de quem pagou por outros se terem suicidado sob os gritos dos carrascos a dizerem-lhes que quem decidia por quanto tempo permaneceriam vivos e qual o momento em que morreriam eram eles; parece ter feito desaparecer dentre as suas reminiscências o cheiro nauseabundo de carne humana queimada espalhado pelo vento à saída dos fornos crematórios; parece ter apagado do seu íntimo as imagens dos “muçulmanos”, essas figuras espectrais curvadas como um islamita em oração, esses “corpos sem morte”, reduzidos a uma existência sem propósito ou dignidade, como Giorgio Agamben os descreveu em Homo Sacer III: O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha (2008).

O que mais impressiona na história de Inge-Brigitt Höss é a inexpressão de qualquer sinal de dor moral por ter sido testemunha de tais atrocidades e a preferência por rememorar o que de bom (?) esses tempos tiveram.
Sabendo nós que a geração do Holocausto nazi não estará muito mais tempo entre nós, que as suas últimas testemunhas vivas irão dentro em breve desaparecer, é nosso dever assegurar-lhes que não deixaremos que tudo o que aconteceu venha a ser esquecido. Como Agamben bem reivindicou, toda a ética pós-Auschwitz deve fundar-se sobre um repensar perpétuo dos testemunhos dos seus sobreviventes, deve tornar-se numa “Ethica more Auschwitz demonstrata”.

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