Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Autárquicas em Braga

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2012-11-27 às 06h00

Jorge Cruz

O Partido Socialista concluiu há dias o processo de escolha do seu candidato à sucessão de Mesquita Machado na Câmara Municipal de Braga e, como era expectável, o actual vice-presidente da autarquia foi o preferido dos militantes socialistas.

A selecção da personalidade que o PS vai propor ao eleitorado para substituir o autarca dinossauro bracarense não se processou de uma forma fácil nem rápida, como todos tivemos ocasião de constatar. Diria mesmo que o processo pecou, aqui e além, por atitudes impensadas, politicamente suicidas, e pouco ou nada compagináveis com as boas regras de convivência democrática.

Pesem embora os aspectos extremamente dolorosos que ao longo dos últimos meses algumas movimentações e atitudes políticas provocaram internamente, estou em crer que aos socialistas não restará agora outra opção que não seja a unidade de acção em torno do candidato do partido. Isto porque, não obstante as feridas que o pleito interno causou ainda não estarem cicatrizadas, nenhum verdadeiro socialista estará interessado em contribuir para que o seu partido perca as próximas autárquicas. É também por essa razão que me recuso a acreditar que algum militante do PS assuma quaisquer atitudes públicas que possam contribuir para a vitória do candidato da oposição.

E por falar em candidato da oposição, o único que se apresentou até agora foi o do PSD. Curiosamente, e ao contrário do que sucedeu em relação a outras candidaturas, os órgãos nacionais do Partido Social Democrata ainda não avalizaram, pelo menos publicamente, a da Câmara de Braga. Ignoro as razões deste atraso, mas conhecendo-se a consonância política entre Ricardo Rio e as políticas do go-verno de Passos Coelho não creio que este silêncio tenha grande significado político. Quando muito terá a ver com questões relacionadas com a constituição em Braga, ou não, de uma coligação idêntica à que suporta o governo.

Como quer que seja, a verdade é que o repetente Rio já vestiu o fato de candidato, multiplicando-se em actividades que lhe proporcionem a proximidade com os eleitores e a transmissão da sua mensagem política. São acções de pré-campanha perfeitamente legítimas e inatacáveis. O mesmo já não se poderá dizer quando o candidato do PSD tenta trazer para a política casos que eventualmente serão da jus-tiça, enveredando por insinuações torpes sobre o seu opositor.

Quero acreditar que se tratou apenas de um momento infeliz, de uma atitude impensada, quando Ricardo Rio disse esperar que Vítor Sousa “se mantenha candidato até à data das eleições”, numa alusão implícita a notícias postas a circular e que alegadamente envolvem o seu nome num processo ainda em investigação criminal.

O candidato social-democrata, se não sabe, deveria saber as diferenças incomensuráveis entre um nome ser referido em notícias de jornais, ser indiciado, ser constituído arguido, ser acusado e ser condenado. E também não pode ignorar que infelizmente qualquer cidadão está sujeito a todo o tempo a ver o seu nome escarrapachado na praça pública, mesmo sem qualquer acusação. Aliás, o próprio Ricardo Rio também já foi vítima disso mesmo, por exemplo a propósito do negócio da antiga fábrica Confiança.

Ricardo Rio é um homem sério e até por essa razão não pode ceder à tentação fácil de usar a demagogia e, principalmente, alimentar suspeições que podem por em causa a honorabilidade de outras pessoas, mesmo tratando-se de opositores políticos. A política tem que voltar a ser a actividade nobre que já foi. Só dessa forma, com atitudes sérias e responsáveis, com um discurso de verdade e assente na realidade, será possível reabilitar a política e os políticos. Que, como todos sabemos, têm andado pelas ruas da amargura.

Nem de propósito, ainda ontem o economista e antigo deputado no parlamento da Bélgica Paul De Grauwe aconselhou o ministro das Finanças português a “não exagerar” na austeridade, para evitar um “ciclo vicioso” de recessão e endividamento. “Diria ao meu amigo Gaspar para não exagerar” na austeridade, disse De Grauwe, professor na London School of Economics, durante a conferência Portugal em Mudança, que assinala o 50.º aniversário do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Na mesma linha, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol declarou que a recessão europeia é a prova da ineficácia da austeridade. “Remeto-me às provas. Estamos muito próximo de uma recessão que prejudicará todos”, disse há dias em Cádiz José Manuel García-Margallo.
O responsável político espanhol não se coibiu de criticar a política que está a ser aplicada na zona euro, acentuando que “a crise da Europa não é económica, é uma crise política”, porque os investidores não acreditam que o projecto europeu continue.

São apenas mais dois casos a juntar a tantos outros que nos últimos tempos criticaram as políticas que não promovem o crescimento económico e se preocupam apenas com a austeridade ou estaremos perante sinais claros de que os políticos começam finalmente a falar verdade e, consequentemente, de que haverá uma inversão nas políticas restritivas?

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