Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Avelino

Braga e a Rampa da Falperra

Avelino

Voz às Bibliotecas

2019-06-21 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Há homens que nascem grandes e morrem agigantados. Homens talhados à fiel imagem do Criador. Homens bem-aventurados, aureolados, de coração puro, abençoados por Deus e pela plenitude da vida.
Assim era Avelino. Veio ao Mundo em Vila Verde, terra das árvores frondosas, de ninhos de aves, num lar onde as asas dos que nele habitavam não eram de pássaro mas de anjo.
Ao seu Pai, Bernardino, pela bondade ofertada sem esperas de retornos, apelidaram-no de Santo. Bernardino contemplava o Mundo pelos olhos da brandura, olhos que um dia cegaram, à luz do dia se apagaram. A cegueira roubou-lhe a visão, mas não o condenou ao exílio da solidão. Bernardino prosseguiu iluminado na sua devoção, intuindo os carentes, estendendo-lhes a mão e a compaixão.

Mariquinhas, em cujo ventre Avelino germinou, era escrevedora. Nutria os espíritos de consolação. Lia e escrevia aos iletrados as cartas dos amados, dos amigos e compadres que apartados percorriam os longínquos fados. De corpo e alma Mariquinhas se entregava às epístolas mitigadoras da saudade, bafejadas de amor, imbuídas de fraternidade. Pôs no Mundo três rapazes, o Álvaro, o Avelino, o José e uma menina, a quem baptizaram de Rosa, a flor da sua Mãe carinhosa.

O seu Mundo desabou quando a morte a Rosinha roubou, botão de rosa na flor da vida ceifado, pelas lágrimas de muitos regado. Mariquinhas deu-se ao desgosto, no leito se acostou e as asas acanhou. Volvidos escassos meses de moroso padecer, adejou as asas e subiu à Terra da Verdade. Na terra das árvores ficou um lar de quatro homens, um lar ausente de mulheres. Um ninho minguado, amargurado pelo furor da dor que tudo enche, tudo ocupa, tudo abocanha no seu destemor. O luto uniu-os. O luto não lhes tirou a fé, nem a força, nem as asas lhes decepou. Prosseguiram anilhados por laços afectuosos até ao fim das suas vidas.

Avelino seguiu para o Seminário de Braga. Quando trabalhava na Lusitana, viu Isaura passar. Era bonita, olhos felinos, porte seguro. Isaura possuía o caminhar dos íntegros e emanava a luz dos virtuosos. Avelino piscou-lhe o olho. Isaura ignorou-o. Grande atrevido! Assim o avaliou. Avelino não se resignou. Todas as manhãs, pouco dormido pelo trabalho noctívago, ia espiá-la ao mercado municipal. Não descansou até o dia em que Isaura lhe falou. Nesse instante benfazejo, nasceu uma longa e bela história de amor, um amor incólume às adversidades, às rasteiras do tempo, à decrepitude dos corpos. Um amor venerado, por Isaura e Avelino alimentado. A chegada ao Mundo de Helena Maria solidificou a amorosa benquerença. Deus enviara-lhes a filha desejada, pelos Pais adorada, menina de olhos dourados, a quem Avelino na mesa-de-cabeceira deixava chocolates Imperador e ternos recados de amor. O árduo trabalho nas Frigideiras do Cantinho, negócio do casal, a todo o tempo os chamava. Isaura era o seu braço direito. Lado a lado sem descanso laboravam. Nunca se separavam. O nome de Isaura bailou-lhe nos lábios de sorriso perene até ao derradeiro sopro por ele exalado.

Quando Avelino foi atropelado, ferido com gravidade, no hospital ficou internado. Isaura visitava-o, levava-lhe os seus petiscos de cozinheira de mão cheia. Avelino perguntava pela menina, agradecia, dizia: “Não sou mais que os outros, comerei o que aqui me dão.”
Avelino levava a vida sem o peso da existência. Alheava-se da cobiça, da inveja, do rancor, da indignidade, da maledicência. Os seus olhos abriam-se à benevolência do Mundo. As suas mãos alargavam-se aos necessitados, acudiam sobrinhos e afilhados, amparavam funcionários, ameigavam os queridos e amados. A sua honestidade e desapego material elevavam-no ao patamar celestial. A sua simplicidade cativava os que dele se acercavam. Da sua boca saíam palavras açucaradas como os doces que vendia, dizeres de afecto, convites atenciosos, confortos sinceros. Da sua boca saíam o optimismo e a paz. “Estou bem”, dizia, “Estou bem”, repetia. Na sua boca não havia queixumes, nem vitimismos. Era um ser raro, de bem consigo, de bem com os outros, de bem com Deus, de bem com o Mundo.

Avelino colheu o que semeou: amor, carinho, amizade, respeito, admiração, dignidade e gratidão. Isaura, Helena Maria, o seu genro Fernando que foi o filho pródigo ofertado pela vida, os netos Miguel, Vasco, Gonçalo e Mariana, retribuíram-lhe o que dele receberam. Protegeram-no e mimaram-no com desvelos angelicais. As asas de Avelino neles se perpetuam. O ninho acolhedor neles continua.
Avelino foi um anjo na Terra. Avelino é um anjo no Céu.
Para nós, os que com ele privámos, foi e será uma bênção de Deus.
Avelino ficará connosco, porque a morte não leva os recordados no amor.

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