Correio do Minho

Braga, terça-feira

Aventuras e desventuras de um boneco de neve

O seu a seu dono!

Conta o Leitor

2013-08-10 às 06h00

Escritor

ARMANDO CALDAS

Era uma vez uma gota de água, ou melhor, era uma vez um conjunto de átomos de hidrogénio abraçados a átomos de oxigénio, formando entre si milhões de moléculas dispersas pela atmosfera que ajudavam a pintar de azul, as quais se reuniram para formar a dita gota de água.
Naquele dia estava frio. Muito frio. As gotas começaram a soltar-se do céu para se precipitarem sobre a terra formando rendilhados de flocos de neve, tecendo um manto branco que cobria a terra e os arbustos emergentes por entre a vegetação menos nobre.

Lançados em voo livre a partir de nuvens viajando segundo um roteiro desenhado pelo acaso, como era o caso daquele dia em que sobrevoavam a serra da Penêda, os pequenos flocos iam pintando de branco a paisagem enregelada pelos dias de Inverno ao longo dos cumes de terra que ferem os céus.

Não sendo um fenómeno propriamente raro por aquelas paragens do então menos verde Minho, também não era algo que acontecia todos os dias, sendo motivo para peregrinações familiares desejosas de mostrar aos seus a beleza da água solidificada num branco puro.

Foi o que aconteceu naquele dia em que um automóvel exausto pela íngreme subida deixava sair uma família para poder contemplar e desfrutar deste singelo fenómeno da natureza. Bola para cá, bola para lá, correrias, saltos e tropelias eram a garantia de um dia bem passado até que um dos pequenos se lembrou do mais importante: faltava o boneco de neve, algo que prontamente o pai resolveu. Concluído o boneco e tiradas as respetivas fotografias para mais tarde recordar, já podia ser dada por encerrada a jornada e preparado o regresso a casa.

Foi assim que nasci. Nasci para dar alegria às crianças. Nasci por nascer. De repente apercebi-me de que existia. Olhei em frente, porque não podia olhar em volta. Reparei que era o único boneco de neve que por ali andava. Andava era uma maneira de dizer, porque os bonecos de neve não andam… Enfim… Tentei falar com as árvores, mas elas ignoraram, a minha presença, afinal de contas, neve é neve e não passa disso mesmo. Não me importei. As crianças foi comigo que brincaram… Caiu a noite. Ficou escuro e eu assustado. Será que iria ser sempre assim? Foram horas de impasse até que o sol acabou por sair do seu repouso e iluminar o dia.
Fiquei à espera de mais crianças, mas nada nem ninguém se aproximou até voltar a cair a noite, regressar o dia, numa monótona sucessão que nada acrescentava. Um certo dia começou a aquecer. Parecia estar frio, mas para mim estava quente. Muito quente. De repente comecei a derreter. De repente comecei a transformar-me em água e a escorrer pela montanha, juntando-me a outra água que não sabia de onde vinha, mas que se vinha juntar a mim. Cada vez corria mais depressa, sem saber para onde, imerso em água como eu, que também não sabia para onde ia.

À medida que ia descendo, a paisagem envolvente também se modificava. Voltei a ver pessoas. Ao lado da água convertida em rio, mas também por cima dela, sobre estruturas que a atravessavam. De repente dei por mim num lugar onde vivia muita gente. Perguntei onde estava e alguém, não sei quem, disse-me que estava em Arcos de Valdevez.

Continuei a viagem. Um pouco mais à frente, um rio muito maior pedia-nos para o acompanhar. Perguntei para onde. Disse-me que para o mar, enquanto me arrastava junto com as águas roubadas ao Vez. E o que é o mar? - perguntei. É o destino final de toda a água e também o seu princípio, respondeu alguém que parecia estar em todo o lado e em lado nenhum.

Continuei. O sabor a sal ao passar por baixo de uma grande estrutura metálica encostada a uma cidade que namorava o casamento das águas provenientes da montanha com as que enchiam os oceanos fez-me perceber ser chegado ao mar.

Fiquei por ali, dias, semanas, meses, rebolando na areia, brincando, saltando, dançando com o ar para criar a espuma, pensando que aí ficaria para sempre. No entanto, na vida nada é para sempre exceto a eternidade e um dia comecei a sentir-me, leve, muito leve, começando a subir em direção a uma abobada azul para me juntar a outra água que a pincelava de branco ao sabor do vento.

Passou o verão, passou o Outono, voltou o Inverno. De repente começou a ficar frio. Muito frio. Cada vez mais frio. O frio era tanto que comecei a tremer e a sentir cristalizar o corpo. De repente tudo voltou a ficar mais pesado e comecei a cair. Ao longe via uma serra. Uma serra que sobressaía das envolventes. Uma serra com um topo alto quase sem vegetação, no centro da qual tinha colocada uma pequena torre, talvez para a fazer mais alta. Uma serra que diziam ser a mais alta de Portugal.

E caí. Branco. Gelado. E assim fiquei. Caído. Tombado. Inanimado. Até ao dia em que um outra criança pediu ao pai para fazer um boneco de neve. Eu.

Voltei a ser o boneco de neve que agradava a crianças e adultos. Dia e noite. Noite e dia. Até chegar o dia em que viria mais quente o sol para me empurrar montanha abaixo, serpentear a serra em direção ao mar, não sem antes namorar Coimbra, que me ensinou que tudo na vida tem um destino, tudo na vida tem um fado, quer se goste ou não.

E assim foi. Regressado ao mar e regressado ao ar, voltei a cair, agora mais perto do local onde nascera, num monte conhecido como Sameiro, num daqueles raros dias em que nevava em Braga.
E novamente alguém fez um boneco de neve. Eu.

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