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Baden-Powell e Portugal (II)

O que é a solidão?

Baden-Powell e Portugal (II)

Escreve quem sabe

2019-03-08 às 06h00

Carlos Alberto Pereira Carlos Alberto Pereira

Na última crónica recordamos as visitas que o fundador do escutismo fez a Portugal, tal como o conhecemos hoje, mas, também, visitou Moçambique como podemos ver por esta sua carta: «Escuteiros Portugueses: Eis-me em Lourenço Marques, chamado também Baía de Delagoa.
É o porto principal da África Oriental Portuguesa. Tinha já vindo aqui há 39 anos (..) mas eu pude assim mesmo percorrer cada fileira de caminheiros, escuteiros, escuteiras, lobitos e avezinhas. Fiquei impressionado, devo dizê-lo, pelo seu magnífico porte (...) As numerosas insígnias de especialidades provavam que eles não eram escuteiros de parada, mas punham todo o coração na sua tarefa.
Isto não me surpreendeu, porque dois dias antes tínhamos tocado na Beira (...) onde tínhamos encontrado um grupo de escuteiros que nos deu a mesma excelente impressão. Visitámos a sua sede central e assistimos a um fogo de conselho dado em nossa honra. (...) Em resumo, trouxemos desta visita aos nossos irmãos portugueses uma excelente impressão; eles podem certamente comparar-se àqueles que vimos em Lisboa e na Madeira. (...) Desejaria estar desembaraçado de febre dentro de poucos dias, a fim de estar em condições para o grande Jambori1».
Admiração de Baden-Powell por Portugal, pela sua História e pelos feitos dos portugueses é muita e encontra-se muito bem plasmada neste texto “Exploradores Portugueses”2 que com esta epígrafe, o fundador do escutismo escreveu e que não resisto a reproduzir sem qualquer comentário:
«Há tempos, na presença de um grande número de exploradores, eu recebi das mãos do embaixador de Portugal a comenda da “ORDEM DE CRISTO”, em recompensa de quanto os escutas portugueses têm feito pelo seu país,
Ao dizer ao embaixador do meu agradecimento, eu disse que o facto constituía, para mim, uma honra particularmente grande, porque isso representava uma ordem conferida, em Portugal, aos velhos Exploradores marítimos de antanho.
O príncipe [infante] Henrique, a quem apelidavam de Navegador, por motivo das suas viagens, cheias de aventuras, e das suas engenhosas invenções para ajudar os marinheiros a descobrir melhor a sua rota, foi até o Grão-Mestre da Ordem de Cristo, e graças a ele é que Portugal produziu uma série maravilhosa de aventureiros e colonizadores.
Várias pessoas me observaram, dizendo que eu dava demasiado relevo ao “caso de Portugal”. E notavam-me: “- Porventura não temos nós também, os britânicos, lobos do mar, os Hawkins, os Drake, os Raleigh, os Gilbert?”
E eu, para me defender, respondi: - “Lede a história; e vereis que o Cabo da Boa Esperança foi descoberto por Dias em 1487; a Índia, por Vasco da Gama, em 1488; o Brasil, por Cabral, em 1500; e a América do Sul, no ano seguinte, por Américo Vespúcio; enquanto Magalhães descobria, no sul da América o estreito do mesmo nome, tão terrìvelmente perigoso, em 1519. E todos eles eram portugueses ou espanhóis.
É verdade que Hawkins foi em demanda do Brasil; Martin Frobisher explorou a passagem do Noroeste, em três viagens diferentes; Sir Walter Raleigh explorou as Índias Ocidentais e o Orenoco, ao norte do Brasil; William Adams foi o primeiro a chegar ao Japão, e estabeleceu uma grande amizade com os japoneses, em 1600; Sir Humphrey Gilbert fundou a colónia da Terra Nova e John Hawkins abriu a África Ocidental ao comércio, enquanto Sir Francis Drake dava a volta ao mundo seguindo Magalhães através dos estreitos que este tinha descoberto.
Mas há uma diferença nas datas que é muito importante respeitar.
As descobertas dos portugueses foram feitas no tempo dos avós e dos pais dos nossos marinheiros.
Se os nossos compatriotas enfrentavam dificuldades e se lançavam no perigo das aventuras com pequenos e insuficientes batéis, levando maus e apenas rudimentares instrumentos de navegação, e bem escassa provisão de víveres, isso dá-nos uma ideia da coragem e valor desses outros homens que se encontravam em muito piores circunstâncias quando largavam as suas velas, rumo ao desconhe- cido.
E comparados os factos, é de justiça e torna-se necessário prestar homenagens a quem de direito pertencem.»
1Hoje, a grafia usa é “Jamboree”, mas neste texto optei pela que Ferreira da Silva, utiliza na tradução do livro de Bastin, Robert, Baden-Powell Cidadão do Mundo, 2ª edição, CNE, Lisboa, 1980.
2Bastin, Robert, Baden-Powell Cidadão do Mundo, 2ª edição, CNE, Lisboa, 1980, p. XXXIII a XXXV.

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