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Banc@ étic@: um oxímoro?

Beco sem saída

Ideias

2015-01-23 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

A justaposição ou associação das palavras “banca” e “ética” ou “banco” e ético” constitui para a maior parte das pessoas uma expressão oximórica, isto é, composta por dois termos que se afiguram em contradição, à semelhança de expressões como “mentiroso honesto” ou de frases como “uma empresa que só faça dinheiro é uma empresa pobre” (Henry Ford).

Para alimentar essa perspetiva muito contribuíram escândalos financeiros como o ocorrido em 2008 com o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA, a protagonizar a maior falência da história dessa nação, em resultado da prática sistemática de mentiras, ocultação de informação e negligências relativas à sua atividade, e, entre nós, os bem conhecidos casos de 2008, com o BPN e o BPP, presididos por José Oliveira e Costa e João Rendeiro, respetivamente, que abriram falência após terem sido acusados de envolvimento em fraudes fiscais, falsificação de contas, branqueamento de capitais e burla, assim como o mais recente caso do BES que, sob a presidência de Ricardo Salgado, colapsou no ano passado depois de colossais imparidades terem sido encontradas nos seus balanços contabilísticos.

A conduta ética, para um negócio como o do setor bancário que vive da confiança, de ter crédito junto dos seus clientes, não pode ser mera retórica, um ingrediente mais para se tornar lucrativo, mas a sua essência, a 'conditio sine qua non' para a sua prosperidade. O custo desse setor não ter entendido isso ou de não o ter assumido seriamente provocou, como bem sabemos, consequências devastadoras na economia e vida social (inter)nacionais.
Pensar, todavia, que a banca se mostra arrependida, aprendeu com o que se passou e que, doravante, vai atuar em consonância com padrões morais mais elevados, será, muito provavelmente, uma ingenuidade, para não dizer uma pura fantasia ou perigosa ilusão.

Ainda assim, a criação dos chamados “bancos éticos”, em alternativa aos tradicionais, parece trazer algum otimismo em relação à possibilidade de, a prazo, se operar uma transformação relevante do setor. Um exemplo disso é o do Banca Popolare Etica em Itália, fundado em 1999 em Pádua e que não parou de crescer nos últimos quinze anos desenvolvendo a sua atividade com base nos princípios que abraçou e plasmou no seu manifesto: “transparência, participação, equidade, eficiência, sobriedade, atenção às consequências não económicas das ações económicas, crédito como direito humano”.

E na sequência do recente Fórum das Finanças Éticas e Solidárias que teve lugar no Porto, o presidente da COOP 560-Cooperativa Multissectorial para a Economia Social e Solidária Manuel Solla, tornou pública a intenção de várias cooperativas portuguesas virem a criar brevemente um banco ético com características idênticas às do referido banco italiano.

Este novo tipo de bancos a emergir pretende diferenciar-se do dos tradicionais principalmente em três aspetos: orientarem-se para clientes, que mais do que rentabilidade e segurança, pretendem que o dinheiro dos seus depósitos receba um uso ético; corresponsabilizarem os clientes na escolha das aplicações do seu dinheiro, em vez de ela estar completamente entregue a um gestor financeiro; favorecerem investimentos em empresas socialmente responsáveis com projetos destinados a melhorar as condições de vida e do ambiente em detrimento de fundos de risco destinados a gerar ganhos de rendimento.
Veremos, pois, se a expressão em título se converterá futuramente de oximórica em tautológica ou pleonástica.

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