Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Basta! Não têm vergonha?

Sinais de pontuação

Ideias

2014-09-02 às 06h00

Jorge Cruz

O processo conducente às eleições para a Federação Distrital de Braga do PS tem vindo a descobrir - e a expor publicamente - o que de pior há no partido, ou seja, os golpes caciqueiros para conquistar ou manter o poder.

Como cidadão e - impõe-se aqui a necessária declaração de interesses - como militante socialista, devo afirmar inequivocamente que estou enojado e envergonhado com os acontecimentos mais recentes. Acontecimentos que, conforme tem vindo a ser relatado na Comunicação Social, envolvem irregularidades várias, entre as quais a inscrição de mortos nos cadernos eleitorais.

Não ignoro que as disputas internas nos partidos costumam propiciar aumentos significativos de votantes. É, aliás, nesses períodos pré-eleitorais que se verificam as maiores movimentações para encherem os cadernos eleitorais. Mas é expectável que as “corridas” ao pagamento de quotas se processem com toda a legalidade e, mais ainda, com total transparência.

Quanto ao resto, ao por vezes brutal aumento de afluência, se decorrer do confronto entre duas candidaturas e do consequente trabalho político de cada uma das equipas dos opositores em presença, até deve ser considerado salutar na justa medida que espelha a pujança do partido. Pegando nas palavras do ainda presidente da Federação de Braga, “essas situações são recorrentes sempre que há eleições muito participadas”.

Fernando Moniz, que possui enorme experiência de dirigente em diversos patamares da estrutura socialista e, portanto, já vivenciou inúmeros actos eleitorais no PS, sabe que é assim mas também não ignora que por vezes estes processos são rodeados de grande polémica e até descambam para irregularidades ou ilegalidades. Os famosos “sindicatos” de votos, as redes de militantes arregimentados para votar em A ou B, são realidades que infelizmente fazem parte do léxico partidário.

Sem alargar demasiado o espaço geográfico de análise e, portanto, reportando-me apenas à área da Federação de Braga, creio que ainda estão na memória de todos as acusações cruzadas aquando de eleições para concelhias, sendo certo que pelo menos um dos processos, o da famosa chapelada, acabou nos tribunais.

O que mais surpreenderá desta vez será a circunstância inédita de a denúncia de alegadas irregularidades ter partido de quem sempre esteve barricado no poder, de quem sempre deteve o controlo do aparelho do partido, enfim, de quem foi acusado de conivência com tais processos. Serão sinais dos tempos, dirão alguns. Fala quem sabe, dirão outros. Penso que a questão é bastante mais complexa e que se prende com a notória perda de influência de alguns antigos caciques que ainda não perceberam que o seu tempo passou.

De facto, acredito que a mentalidade de algumas dessas personagens, parte delas com créditos pelos serviços prestados à comunidade e à democracia portuguesa, não acompanhou a evolução natural das coisas, incluindo a mudança que se operou no nosso país. Casos há em que parecem mesmo ter parado no tempo.

E daí continuarem a acreditar, não obstante os sinais contrários, que em política vale tudo, que os interesses privados se sobrepõem e substituem as causas, enfim, que as golpadas continuam a ser o modus operandi normal numa democracia europeia em pleno século XXI. Confesso que sinto dó das pessoas com mentes que se encaixam neste arquétipo porque, além do mais, ainda não perceberam que o mundo mudou, ainda não entenderam o que se passa à sua volta.

E no entanto, mau grado esta leitura pessimista que - atenção! - advém tão somente dos factos relatados abundantemente na Comunicação Social, os discursos iniciais de alguns dos protagonistas até foram bastante simpáticos e, de certa forma, entusiasmantes.

Vejamos: Joaquim Barreto, que durante cerca de uma dúzia de anos exerceu o cargo a que agora se candidata de novo, anunciou que se apresenta “com o espírito de servir, de defender o partido”, sublinhando a sua vontade de ajudar a “fortalecer” o PS e lembrando que é preciso “credibilizar a política”. Por seu turno, Maria José Gonçalves, que protagoniza a outra candidatura, disse considerar que “o novo tempo é um desafio de regenerar a ação política”, objectivo que, segundo acentuou, “pretendemos enfatizar com a candidatura que personifico” porque “é imperioso que o PS tenha a capacidade de devolver a esperança e confiança”.

No plano retórico parece existir grande coincidência de ideias entre os dois candidatos em presença, em questões tão relevantes como a regeneração e credibilização da política, no fortalecimento do partido e na criação das condições para o regresso da esperança e confiança no futuro.

A questão de fundo ou o problema, se preferirem, prende-se não com os valores que, naturalmente, são parte integrante do código genético do Partido Socialista e, nessa medida, devem ser assumidos por todos os militantes, mas com a prática política ignominiosa de uns tantos. A verdade é que não pode valer tudo. Definitivamente, as coisas têm que mudar, não para ficar tudo na mesma, como tem sido habitual, mas para que a esperança possa renascer.

Receio, contudo, que a desejada e necessária credibilização da política tenha que passar por uma grande renovação dos agentes políticos, isto é, com novos protagonistas, acima de qualquer suspeita.

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