Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Bêbado lacónico

O Estado da União

Conta o Leitor

2016-07-28 às 06h00

Escritor

Márcio Góis

Quando pensava que ela não existia, ela existe. Mas como? Estarei louco e isto é apenas uma alucinação momentânea, ou estarei certo e nada do que julgava não-ser, afinal é. Pasme-se! Ela tem a forma humana e não é senão aquilo que esperamos de si mesma. Tem um sabor amargo, um cheiro incomodativo e estranho. Mas, e o olhar? Não lhe reconheço os olhos. Se os reconhecesse, talvez conseguisse deslindar todas estas dúvidas e anseios que ocupam o seu tempo a atormentar a minha quietude de espírito. Que posso eu fazer que não a intimide? Julgá-la pela metade seria o equivalente a tirar-lhe a essência. Não, não sou sequer capaz de lhe falar. Sou cobarde demais para me sujeitar ao ridículo. Mas em boa verdade não será ela também ridícula? E porque é que apareceu agora e não noutra altura? Podia bem ter aparecido ontem, quando estava na companhia de desagradáveis e hediondos doidivanas. E estes fugazes devaneios, em preto e amarelo, que aparecem e desaparecem. O que é que na verdade significam? Serei eu o problema deles, ou serão eles antes o meu grande problema?
Não desconsiderando os feixes luminosos que rodopiam violentamente sobre as retinas desgastadas pelo alcóol, há entre todas as perguntas passíveis de serem feitas neste momento, uma em particular que me melindra com mais severidade do que qualquer outra. Mas afinal de quem será a forma humana que se depara diante de mim há uns largos minutos?

Embora continue sem saber ao certo quem ela é, suspeito que, se por acaso me atrevesse a cravar-lhe as unhas no peito, ficaria nesse mesmo instante sem as vísceras. Se me atrevesse a olhá-la por dentro ficaria certamente cego. Se me atrevesse a tocar na pele que lhe reveste a carne, ficaria certamente insensível à pressão do toque humano. Se me atrevesse a dizer-lhe quem sou deixaria certamente de sê-lo. Se me atrevesse a pegar numa pedra e atirá-la contra ela… Enfim, poderia até atingi-la, é certo, e quando muito abrir-lhe uma fissura, mas precisaria de mais pedras como essa que no entanto poderiam nunca ser suficientes.
E, não obstante tamanha sobranceria a sua, antevejo ainda que, sem peias de acertar em cheio ora no cravo ora na ferradura, só a mesma tem o dom divino de transformar o amargo em doce, o dilúvio de inverno numa brisa cálida de verão, a anomia num limbo, o desacerto em harmonia, o deserto numa floresta cheia de vida e cor.
Ao olhar em meu redor reparo com espanto que já ninguém ocupa as cadeiras de chapa das mesas redondas, agora vazias sem o peso incruento da carne humana em cima de si mesmas. Estranhamente estou a sós pela primeiríssima vez com o empregado de balcão. Continua a olhar- -me com o mesmo ar de repúdio com que olha qualquer bêbado. Porventura estará com uma pressa enorme de regressar, como é de resto hábito seu às sextas-feiras, à ‘Albergaria das Coelhinhas’ para penetrar a vagina da mesma meretriz de há cinco anos para cá, não a trocando, em momento algum, nem por uma mulher melhor de cama. Dirige-me então a palavra, dizendo furioso e com cara de poucos amigos:
- Levanta-te e vai-te embora, mas antes disso paga o raio da conta. São 13 euros e 45 cêntimos!
Seguidamente estende a mão esquerda à espera que eu meta uma das minhas mãos na algibeira. Tiro assim do bolso direito das calças de ganga escura uma nota de vinte euros, enroscada nas pontas e com um ligeiro corte ao meio, quase imperceptível a olho nu, para pagar a conta. O empregado pega nela e coloca-a sem meias medidas na caixa registadora, donde retira uma nota de cinco, duas moedas de vinte cêntimos e uma de cinco cêntimos para me dar como troco. Olha-me novamente com a expressão fria e aterradora que lhe conheço desde a última vez que o vi. Nela vejo o seguinte ultimato:
- Ou me levanto e vou embora a bem, ou me levanto e vou embora a mal!
Por conseguinte esforço-me o mais que posso para abandonar o quanto antes esta cadeira, todavia os tendões dos joelhos permanecem inutilmente imóveis. E logo agora que ele começa a perder a paciência comigo, não se movendo nenhuma das pernas nem um milímetro para frente, nem um milímetro para nenhum dos restantes lados. Eis que o verniz do empregado, de tão aborrecido com a minha postura, acaba por estalar. Já sem paciência pega em mim pela altura da barriga, colocando-me sobre o seu ombro direito, para depois me arremessar, como um objecto desprezível, pela porta fora, acabando por embater estrondosa e violentamente de costas na calçada portuguesa. Talvez por estar absorto, não senti minimamente o impacto da queda.

Ao olhar para baixo dou mais uma vez de caras com a mesma forma humana. Porque que é que ela não me larga? Será que devo de uma vez por todas matá-la ou aceitá-la como metade que aparentemente se unia, há uns minutos atrás, à outra metade esquerda da cadeira de chapa vetusta onde estava sentado? Com a maior das franquezas penso mais uma vez que não sei, mas talvez o melhor seja tão-só abafar a minha mágoa no que resta do vermute que ainda tenho na mão e deixar que o mesmo faça o que lhe compete.

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