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Beco sem saída

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Beco sem saída

Voz aos Escritores

2021-09-17 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Em S. João de Areias, município de Santa Comba Dão, há um Beco Quelho. Não sei a história deste beco, presumo que adjetivado com «quelho», e digo «presumo» porque não conheço a palavra em forma adjetiva. Um dia passei por lá, registei o facto e nunca mais pensei nisso. Até ontem, quando, passeando por Riba de Ave, dei de caras com o Quelho das Pombinhas. Porque sinto estalidos sistemáticos nos neurónios quando me surgem pormenores deste quilate, fiquei a pensar: mas «quelho» é, afinal, nome ou adjetivo? Fiz uma pequena investigação e verifiquei que, em Portugal, há uma «Rua do Quelho» em Coimbra, Condeixa-a-Nova, Águeda e Vila Pouca de Aguiar, o que faz supor que «rua» e «quelho» teriam, no momento da formação destes nomes, significados diferentes. A provar-se o étimo «canaliculum» e a comum evolução fonética, com as síncopes e apócopes características da passagem do latim ao português, (caaiclu>caalho>quelho), a palavra será nome, e resulta bem no Quelho das Pombinhas. Podia ser Quelho de Luís de Camões, que também existe em Riba de Ave, mas não, é mesmo das Pombinhas. Que fenómenos originaram a movência estrutural, de nome a adjetivo, para além das suspeitosas adjunções, é coisa a estudar. Neste momento, não estou habilitado a mais profundas explicações, razão por que passo à frente.
Convém dizer que, se «beco» é palavra corrente na região minhota, «quelho» nem por isso.

Uma consulta a alguns dicionários mostra-nos uma ampla lista de sinónimos, mais ou menos perfeitos, deste «quelho»: rua, atalho via, caminho, trilha, alameda, passagem, carreiro, vereda, viela, canal, e outros que se vão distanciando semanticamente. No caso presente, e pensando nas pombinhas, aponto para o atalho, pois disso se trata na vila já referida. Falta saber a que pombinhas se referirá o nome, se às frágeis aves que fazem trrutrru, se a pombas com outras asas. Não sei se a onomástica resolveria a dificuldade desta e de outras denominações, que mergulham em antropologias diversas, em vivências particulares nas diversas diacronias.
Anteontem, um amigo disse-me, pesaroso, que se sentia num beco sem saída, Não disse «rua» ou «quelho», nem «via», nem «vereda». Disse exatamente assim: «estou num beco sem saída». Compreendi imediatamente a sua afirmação, tentei ajudá-lo da maneira que me foi possível, e estou agora a magicar na razão por que, especifica e figuradamente, esta expressão se fixou na língua de forma pleonástica. E isto porque (facto que se acha confirmado em alguns dicionários!), «beco» significará exatamente «rua sem saída». Voltas semânticas que as palavras dão e voltas penalizantes que a sábia vida nos dá. Quanta dor, quanto sofrimento foi necessário até à cristalização de uma expressão que eu ouvi e compreendi completamente na profundidade de uma emoção específica?

Estar num beco sem saída significa, ainda figuradamente, andar nas ruas da amargura. E não é bom sentir o coração amargo. Que o diga Riobaldo, personagem sertaneja dobrando a muito custo as veredas da sua vida. Rua, vereda, quelho ou beco, com saída ou sem saída, são realidades nossas nominadas pela nossa imaginação. Que, expansiva como é, as transporta aos universos analógicos e meta- fóricos.
O que é preferível: viver num Beco Quelho como o de Santa Comba Dão, num beco sem saída metafórico ou nas ruas da amargura que são, ao fim e ao cabo, todas as ruas da nossa vida? Fazendo bem as contas e analisando o final de «Grande Sertão: Veredas», de João Guimarães Rosa, não desdenharia ser o Riobaldo. Melhor, muito melhor, que o Esteves sem Metafísica.

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